Conto literário

O javali de bronze

Um menino órfão e pobre de Florença encontra consolo e inspiração numa estátua mágica de um javali de bronze, que o leva numa viagem noturna por galerias de arte, revelando seu talento artístico inato que, apesar das adversidades e da sua morte prematura, o eleva à grandeza.

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O javali de bronze

Na cidade de Florença, não longe da Praça del Granduca, há uma pequena rua que se chama, se não me engano, Porta Rossa. Ali, diante do mercado de legumes e verduras, está um javali de bronze de trabalho primoroso; de sua boca corre água pura e fresca. O animal em si já escureceu completamente com o tempo, apenas o focinho brilha como se fosse polido: foi polido por centenas de mãos de pobres, crianças e adultos, que o abraçavam e aproximavam dele suas bocas ressequidas para beber a corrente de água. Basta observar como algum garotinho bonitinho, quase nu, abraça o belo animal e aproxima sua boquinha fresca do seu focinho — é verdadeiramente um quadro! Qualquer pessoa que chegue a Florença encontrará facilmente este lugar: basta perguntar a qualquer mendigo, e ele imediatamente dirá onde se encontra o javali de bronze.

Era uma noite precoce de inverno; as montanhas estavam todas cobertas de neve, mas no céu brilhava a lua, e a lua na Itália ilumina de tal modo que transforma a noite em dia — não pior que nossos dias escuros de inverno. Mas o que digo eu — não pior! Até melhor, porque aqui o próprio ar parece luminoso, e o céu como que se eleva mais alto, enquanto lá no norte, esse teto frio de chumbo — o céu — simplesmente nos esmaga contra a terra úmida, que cedo ou tarde fechará a tampa do nosso caixão.

No jardim ducal, sob a sombra dos abetos, onde mesmo no inverno florescem milhares de rosas, estivera sentado o dia inteiro um pequeno maltrapilho. O garotinho poderia servir como imagem viva da Itália: irradiava beleza e, ao mesmo tempo, era tão miserável, tão infeliz... Sentia uma fome e sede terríveis, mas ninguém lhe dera hoje sequer uma moeda. Enquanto isso, escurecera, era hora de fechar o jardim, e o guarda expulsou o menino. Durante muito tempo o pobrezinho ficou parado, pensativo, sobre a ponte lançada sobre o Arno, contemplando as estrelas que cintilavam na água.

Depois dirigiu-se ao javali de bronze, inclinou-se, envolveu-lhe o pescoço com seus bracinhos e, aproximando a boquinha do focinho brilhante, começou a avidamente sorver a água fresca. No chão jaziam algumas folhas de alface e um par de castanhas — serviram-lhe de jantar. Na rua não havia alma viva, o menino estava completamente sozinho, e ele sentou-se sobre o javali de bronze, inclinou sua cabecinha encaracolada sobre a cabeça do animal e adormeceu num instante.

À meia-noite o javali de bronze moveu-se, e o menino ouviu distintamente: "Segura-te bem, pequenino, agora vou correr!" E o javali realmente partiu com o menino a toda velocidade. Que passeio foi aquele!

Primeiro dirigiram-se à Praça del Granduca; o cavalo de bronze do monumento ducal relinchou alto; os brasões coloridos da antiga prefeitura brilharam como transparências, e o Davi de Michelangelo agitou sua funda; por toda parte despertava uma vida estranha. Os grupos de bronze "Perseu" e "O Rapto das Sabinas" permaneciam como se fossem vivos; um grito de terror mortal ecoava pela magnífica praça deserta.

Junto ao Palácio Uffizi, sob o arco onde durante o carnaval se reúne toda a nobreza florentina, o javali de bronze parou.

— Segura-te bem! — disse ele ao menino. — Agora marcha escada acima!

Durante todo esse tempo o garotinho não proferira uma única palavra, tremendo de medo e de alegria. Eis que entraram numa longa galeria; o menino conhecia-a bem: já estivera ali antes. As paredes estavam salpicadas de pinturas, por toda parte havia bustos e estátuas, iluminados por uma luz maravilhosa; parecia que ali reinava um dia claro. Mas tornou-se ainda melhor quando se abriu a porta para as salas laterais! Todo esse esplendor era bem conhecido do menino, mas desta vez tudo se lhe apresentava sob uma iluminação especial, miraculosa.

Eis que diante dele surge uma mulher nua encantadora — tal perfeição da natureza só poderia ser reproduzida em mármore pela arte de um artista incomparável. Suas formas divinas respiravam vida, aos seus pés brincavam golfinhos, a imortalidade cintilava em seu olhar. Os homens chamam-na Vênus de Médici. De ambos os lados da deusa dispuseram-se estátuas de mármore de belíssimos jovens: um afiava uma espada — chamam-no "O Afiador"; noutro pedestal lutavam gladiadores. E a espada era afiada, e os lutadores combatiam pela deusa da beleza.

Todo esse brilho quase cegava o garotinho; as paredes radiavam cores variadas; tudo era — a própria vida, o próprio movimento. Havia ainda outra representação de Vênus, a Vênus terrena, cheia de vida e fogo, tal como Ticiano a sonhara. Sim, eram duas maravilhosas figuras femininas! O corpo belo, inteiramente descoberto, da Vênus de Ticiano repousava sobre um leito macio; seu peito erguia-se suavemente, a cabeça movia-se ligeiramente, os cabelos abundantes caíam sobre os ombros arredondados, e os olhos escuros ardiam de paixão. Nenhuma das pinturas, contudo, ousava sair completamente de sua moldura. A própria deusa da beleza, os gladiadores e o afiador também permaneciam em seus lugares: estavam acorrentados pelo esplendor que fluía da imagem da Madona, de Jesus e de João. Os santos deixaram de ser pinturas, eram agora os próprios santos!

Que beleza, que esplendor reinavam nestas salas! O javali de bronze percorreu-as passo a passo, e o menino viu tudo. Uma visão apagava da memória outra, mas uma pintura deixou em sua alma uma marca indelével, principalmente graças às crianças alegres e felizes nela representadas; o menino já as vira uma vez durante o dia.

Muitos talvez passassem indiferentes por esta pintura, e no entanto ela é um verdadeiro tesouro de poesia. Nela está representado Cristo descendo ao inferno, mas em torno dele aglomeram-se não pecadores atormentados, mas pagãos. Pintou-a o florentino Ângelo Bronzino. O melhor nela é a expressão nos rostos das crianças: a firme certeza de que subirão ao céu. Dois pequeninos já se abraçam mutuamente; um, colocado mais acima, estende os braços ao que está mais abaixo, apontando ao mesmo tempo o dedo para si mesmo, como que dizendo: "Eu vou para o céu!" Nos rostos dos adultos, porém, estão escritas uma esperança tímida e insegura e uma súplica humilde.

O menino contemplou esta pintura mais longamente; o javali de bronze permanecia imóvel, e de repente ouviu-se um suspiro suave. De onde saiu? Da pintura ou do peito do animal? O menino estendeu a mão para as crianças sorridentes, mas o javali disparou de volta para o vestíbulo.

— Obrigado, meu querido e bom javalinho! — disse o garotinho e acariciou o animal, que — toc, toc! — descia correndo a escada.

— Obrigado também a ti! — disse o javali. — Eu te ajudei, e tu me ajudaste: só posso mover-me quando sobre mim está sentado uma criança inocente. Então posso até passar sob os raios da lâmpada que arde diante da imagem da Madona. Posso entrar contigo em toda parte, apenas não na igreja! Mas olhar para dentro através das portas abertas não me é proibido! Não desças de mim! Se desceres, tornar-me-ei tão morto e imóvel quanto me viste durante o dia na rua Porta Rossa.

— Não te abandonarei, meu querido javali! — disse o menino, e eles voaram como um turbilhão pelas ruas até a praça, à igreja de Santa Cruz.

As enormes portas de entrada abriram-se; sobre o altar ardiam velas, de modo que dentro da igreja e até na praça deserta havia claridade.

Do monumento fúnebre situado na capela lateral esquerda da igreja emanava uma luz extraordinária, como se em torno se formasse uma auréola de centenas de milhares de estrelas em movimento. Sobre o monumento ostentava-se um brasão: uma escada vermelha, como que ardendo em fogo, sobre um campo azul. Era o túmulo de Galileu; é muito simples, mas o brasão está cheio de profundo significado. Poderia servir de brasão da própria arte ou ciência: pois também os seus representantes são conduzidos à imortalidade pela escada flamejante; todos os profetas da arte e da ciência, marcados pelos dons do Espírito, ascendem ao céu, como o profeta Elias.

As imagens colocadas sobre os sarcófagos de mármore na capela lateral direita da igreja pareciam todas terem ganho vida. Ali estava Michelangelo, ali Dante com uma coroa de louros na fronte, aqui Alfieri, Maquiavel — por toda parte grandes homens, o orgulho da Itália (Não longe do túmulo de Galileu encontra-se o túmulo de Michelangelo; sobre ele — seu busto e três representações alegóricas: Escultura, Pintura e Arquitetura. Ao lado — o túmulo de Dante (seu corpo repousa em Ravena); nele vê-se a figura da Itália, indicando a colossal estátua de Dante; aí também a poesia chora a perda sofrida. A dois passos — o monumento fúnebre de Alfieri, adornado com louros, lira e máscaras; sobre o túmulo chora a Itália. O túmulo de Maquiavel encerra esta série de monumentos dos grandes homens da Itália. — Nota do autor.). A igreja de Santa Cruz é magnífica, muito mais bela, embora não tão grande, quanto a catedral florentina de mármore.

As dobras das vestes de mármore moviam-se, e as próprias imagens dos grandes homens erguiam as cabeças e

Dirigiam seus olhares para o altar brilhante, de onde se ouvia o canto e onde meninos em vestes alvíssimas queimavam incenso em turíbulos de ouro; um forte perfume fluía da igreja para a praça.

O menino estendeu a mão para o brilho luminoso, mas no mesmo instante o javali de bronze disparou adiante, e ele teve de agarrar-se com força ao pescoço do animal. O vento assobiava-lhe nos ouvidos, as portas da catedral fecharam-se com um guincho; então a consciência abandonou o menino, um frio mortal tomou conta de seus membros, e — ele abriu os olhos.

Já era manhã; ele estava meio sentado, meio deitado, tendo quase escorregado completamente das costas do javali, que permanecia, como sempre, em seu lugar habitual.

O terror apoderou-se do menino só de pensar naquela a quem chamava de mãe. Ela o enviara no dia anterior para pedir esmolas, mas ninguém lhe dera nada; a fome atormentava o pobrezinho. Mais uma vez abraçou o javali, beijou-lhe o focinho, acenou-lhe com a cabeça e dirigiu-se a uma das ruas mais estreitas, onde mal podia passar um burro carregado. Em seguida, o menino entrou por uma porta entreaberta, revestida de ferro, e começou a subir uma escada de tijolos sujos, com uma corda no lugar de corrimão. A escada levava a uma galeria aberta, toda coberta de trapos; da galeria descia outra escada para o pátio; no meio do pátio havia um poço, do qual grossos fios de ferro se estendiam a todos os andares, e por eles subiam e desciam constantemente baldes com água; o mecanismo rangia, e a água dos baldes respingava sobre o calçamento do pátio. Por uma estreita escadinha de tijolos meio desmoronada, o menino subiu ainda mais alto; ao seu encontro, dois marinheiros russos desciam alegremente pelos degraus e quase derrubaram o garoto. Eles voltavam de uma festança noturna alegre; atrás deles vinha uma mulher já não jovem, mas de constituição robusta, com cabelos negros e densos.

— Trouxeste muito? — perguntou ela ao menino.

— Não te zangues! — implorou ele. — Ninguém me deu nada!

E agarrou-se à borda do vestido da mãe, como se quisesse beijá-lo. Entraram no quarto; não o descreveremos; bastará dizer que ali havia um pote de barro com brasas ardentes — uma bolsa de aquecimento, ou marito, como a chamam na Itália. A mulher pegou-a e começou a aquecer as mãos.

— Trouxeste pelo menos alguma coisa? — perguntou ela, dando uma cotovelada no menino.

A criança chorou; ela deu-lhe um pontapé; ele gritou alto.

— Cala-te, senão parto tua cabeça barulhenta! — disse ela, erguendo a bolsa de aquecimento para golpeá-lo.

O menino caiu no chão aos gritos. A porta abriu-se, e entrou a vizinha, também com uma bolsa de aquecimento nas mãos.

— Felicita! Que estás fazendo com a criança?

— A criança é minha! — respondeu Filicita. — Posso matá-la se quiser, e a ti também, Gianina!

E ergueu a bolsa de aquecimento. A vizinha levantou a sua em defesa, e os potes chocaram-se — cacos, brasas e cinzas voaram por todo o quarto, enquanto o menino foi lançado para fora da porta, para o pátio e para a rua! A pobre criança correu até faltar-lhe o ar, e viu-se obrigada a parar junto à igreja de Santa Croce, aquela mesma que visitara naquela noite. A igreja inteira resplandecia em luzes; ele entrou, ajoelhou-se junto à primeira tumba à direita — era a tumba de Michelangelo — e rompeu em altos soluços. As pessoas iam e vinham, a missa terminara, ninguém se importava com o menino; apenas um cidadão idoso parou por um momento e olhou para ele, mas depois seguiu seu caminho, como os outros.

A criança, totalmente exausta pela fome e pela sede, arrastou-se para um canto entre a parede e a tumba de mármore e adormeceu. Acordou somente ao entardecer — alguém o sacudira; levantou-se e viu diante de si o mesmo velho.

— Estás doente? Onde moras? Passaste o dia inteiro aqui? — bombardeou-o o velho com perguntas.

O menino respondeu, e o velho levou-o a uma casinha numa das ruas laterais, não longe da igreja. Entraram numa oficina de luveiro: uma mulher idosa costurava diligentemente, e sobre a mesa à sua frente saltitava uma pequena cadela branca de Bolonha, tosquiada tão curta que através da pelagem transparecia o corpinho rosado. A cadelinha lançou-se sobre o menino.

— Almas inocentes reconhecem-se prontamente! — disse a mulher, acariciando a cachorrinha e a criança.

As boas pessoas, após alimentarem e darem de beber ao menino, permitiram-lhe passar a noite ali, e no dia seguinte o tio Giuseppe quis falar com a mãe do garoto.

Deitaram a criança numa caminha pobre, mas ela lhe pareceu real: estava acostumado a passar as noites sobre as pedras duras do calçamento. Adormeceu tranquilamente e sonhou com quadros luxuosos e o javali de bronze.

Pela manhã, o tio Giuseppe saiu, e o pobre garotinho ficou triste: tudo acabaria sendo levado de volta à mãe! E chorava, beijando a cachorrinha branca e vivaz, enquanto a boa mulher lhes acenava carinhosamente com a cabeça.

Bem, com o que teria voltado o tio Giuseppe? Ele conversou longamente com a esposa; ela balançava a cabeça aprovadoramente e acariciava a cabeça do menino, dizendo:

— Que menino tão querido! Dela sairá um excelente luveiro, não pior que tu! Tem dedos tão finos e ágeis! Foi pela própria Madona destinado a ser luveiro!

E o menino permaneceu com eles. A esposa do luveiro ensinou-o a costurar; alimentavam-no bem, dormia excelentemente e tornou-se um menino alegre e vivaz, que não dispensava às vezes pregar peças e provocar Belíssima — assim se chamava a cachorrinha; mas a patroa ameaçava-o com o dedo, repreendia-o e zangava-se, o que afligia muito o menino. Certa vez, estava ele sentado, pensativo, em seu quartinho, onde secavam também as peles; as janelas que davam para a rua estavam protegidas por grades grossas; o menino não conseguia dormir: o javali de bronze não lhe saía da cabeça, e de repente ouviu na rua: toc! toc! Decerto era o javali! O menino correu à janela, mas a rua já estava vazia.

— Ajuda o senhor, pega a caixa de tintas! — disse certa manhã a patroa, ao ver o jovem vizinho pintor carregando uma caixa e uma tela enrolada num pau.

O menino pegou a caixa e seguiu o pintor. Foram à galeria de pinturas e subiram exatamente pela mesma escada que o menino lembrava tão bem daquela noite em que cavalgara o javali; reconheceu todas as estátuas e quadros, a maravilhosa Vênus de mármore, a Madona, Jesus e João.

Então pararam diante de um quadro de Bronzino, no qual está representado Cristo descendo ao inferno e cercado por crianças sorridentes e firmemente crentes em sua salvação; o pobre menino também irradiou todo um sorriso — sentia-se ele próprio no céu.

— Bem, podes ir! — disse-lhe o pintor, que já havia instalado seu cavalete.

— Não poderia eu ver como o senhor transferirá o quadro para cá, para esta tela branca? — perguntou o menino.

— Agora ainda não pintarei com tintas! — respondeu o artista, pegando um lápis de carvão.

Sua mão moveu-se rapidamente, os olhos fixaram-se na grande pintura e, apesar de fazer apenas traços finos, surgiu na tela a mesma imagem etérea de Cristo que havia no quadro pintado a óleo.

— Bem, vai então! — disse novamente o pintor, e o menino saiu mansamente para casa, sentou-se à mesa e pôs-se a aprender... a costurar luvas.

Mas seus pensamentos voavam para a galeria de pinturas; furava os dedos com a agulha, o trabalho não avançava, porém já não provocava mais Belíssima. À noite, o menino deslizou pela porta aberta para a rua; fazia frio, mas no céu brilhavam maravilhosas estrelas claras. Correu pelas ruas silenciosas diretamente até o javali de bronze, inclinou-se sobre ele, beijou-lhe o focinho brilhante, depois montou em suas costas e disse:

— Como senti saudades de ti, querido javali! Precisamos dar outro passeio esta noite!

O javali de bronze não se moveu; de sua boca continuava a correr um jato de água pura e fresca. O menino estava sentado sobre ele, como um cavaleiro sobre um cavalo, quando de repente alguém puxou-lhe a borda do vestido. Olhou e viu Belíssima, a pequena, a nua Belíssima! A cachorrinha também escapara sorrateiramente pela porta e seguira o menino. Belíssima latia, como se quisesse dizer ao menino: "Eu também estou aqui! Para onde foste tu?" Se aparecesse diante do menino um dragão de fogo, o pobrezinho não teria mais medo dele do que de Belíssima. Belíssima na rua e "sem roupa!", como diria a patroa. Que seria agora?! No inverno, a cachorrinha nunca era solta de casa sem uma manta de pele de carneiro, especialmente costurada para ela. A pelezinha era enfeitada com guizos e laçarotes, e amarrava-se ao pescoço e sob a barriga com fitas vermelhas. Acompanhando sua ama nesse traje durante os passeios, a cachorrinha parecia um pequeno cordeiro que trotava com passinhos rápidos.

"Bellissima está aqui, e despida! O que acontecerá agora?" Todos os sonhos se desfezaram; o menino beijou o javali de bronze, pegou Bellissima — a pobrezinha tremia de frio — e correu para casa com todas as suas forças.

— Que é isso que tens? Para onde corres? — gritaram dois gendarmes que lhe saíram ao caminho; Bellissima latiu.

— Onde roubaste uma cadelinha tão bonitinha? — perguntaram eles e tomaram-na do menino.

— Ah, devolvam-me a cadelinha! — suplicava o rapazinho.

— Se não a roubaste, diz em casa que alguém venha buscá-la na guarda.

E foram-se embora com Bellissima.

Que desgraça! O que deveria ele fazer: atirar-se ao Arno ou voltar para casa e confessar? Os patrões, certamente, bater-lhe-iam até à morte! "Pois que batam; eu próprio quero morrer; irei então ter com Jesus e a Madona!" E foi para casa, principalmente para morrer.

A porta estava trancada; ele não conseguia alcançar o batedor da porta; na rua não havia alma viva, mas no pavimento jazia um calhau, e o menino pôs-se a bater com ele na porta.

— Quem está lá? — ouviu-se uma voz.

— Sou eu! — disse ele. — Bellissima não está! Abram-me e batam-me até à morte.

Instalou-se a confusão; especialmente a patroa assustou-se pela pobre cadelinha; imediatamente olhou para a parede, onde pendia a cobertazinha da cadela: a pele de carneiro estava no seu lugar.

— Bellissima está na guarda! — exclamou ela. — Ah, seu moleque indigno! Como é que a conseguiste levar? Ela vai gelar! Uma criaturinha tão delicada nas mãos de soldados grosseiros!

E o tio Giuseppe teve de ir buscar a cadelinha. A patroa gemia, e o menino chorava; acorreram todos os vizinhos, veio também o pintor. Puxou o rapazinho para si, começou a interrogá-lo sobre como tudo acontecera e, aos poucos, entre fragmentos e interrupções, ficou a saber toda a história do javali de bronze e da galeria de pinturas. Não foi fácil compreender logo o rapazinho.

O pintor consolava o menino e defendia-o perante a velha, mas ela só se acalmou quando o tio Giuseppe regressou com Bellissima, que estivera entre os soldados. Que alegria! O pintor acariciou o pobre rapazinho e deu-lhe uma pilha inteira de gravuras.

As gravuras eram maravilhosas, engraçadíssimas! Especialmente belo era o javali de bronze — parecia mesmo vivo! Nada poderia ser melhor! O pintor deu alguns traços a lápis, e no papel surgiu o javali de bronze, e não apenas ele, mas também a casa que ficava atrás dele!

"Quem me dera saber desenhar e pintar assim! O mundo inteiro seria meu! Poderia transferir tudo para o papel!"

No dia seguinte, aproveitando um momento em que ficou sozinho, o menino agarrou num lápis e tentou copiar o javali no verso de uma das gravuras. Conseguiu! Um pouco torto, um pouco inclinado, uma pata mais grossa que a outra, mas ainda assim dava para perceber que era o javali de bronze.

O menino exultava! É verdade que o lápis ainda não lhe obedecia bem — ele notava isso perfeitamente. Mas no dia seguinte, junto ao primeiro javali de bronze, estava outro; este já era cem vezes melhor, e o terceiro ficou tão bom que qualquer pessoa reconheceria imediatamente de quem fora copiado.

Em compensação, a costura das luvas ia mal, e as diversas pequenas incumbências dos patrões eram realizadas com lentidão e dificuldade. Graças ao javali de bronze, o menino descobrira que qualquer imagem podia ser transferida para o papel, e a cidade de Florença era um verdadeiro álbum, bastando folheá-lo! Na Piazza della Trinità ergue-se uma coluna esbelta; no seu topo encontra-se a deusa da justiça, de olhos vendados e com uma balança nas mãos; em breve também ela foi parar ao papel, transportada para lá pelo aprendiz de luveiro. A coleção de desenhos dele continuava a crescer, mas até então eram apenas representações de objetos inanimados. Certa vez, Bellissima saltitou diante dele, e ele disse-lhe:

— Fica quietinha! Verás que bonitinha vais sair no desenho!

Bellissima, porém, não queria ficar quieta, e foi preciso amarrá-la. Mas mesmo presa pela cauda e pela cabeça, continuava a saltitar e a ladrar; foi necessário apertar bem o cordel. De repente, entrou a senhora.

— Rapazinho sem Deus! Pobre cadelinha! — foi tudo o que conseguiu dizer.

Depois empurrou o menino, deu-lhe um pontapé e expulsou de casa o ingrato ímpio, cobrindo de beijos e lágrimas a pobre Bellissima, quase sufocada.

Nesse momento, o pintor subia as escadas, e — eis o ponto decisivo da nossa história.

Em 1834, houve uma exposição na Academia de Belas-Artes de Florença. Dois quadros, colocados lado a lado, atraíam multidões de espectadores. No quadro menor estava representado um rapazinho alegre, que desenhava uma cadelinha branca, pequena e de pelo curto.

A modelo, aparentemente, não quisera ficar quieta e por isso fora amarrada à mesa pela cauda e pela cabeça com um cordel. A vida jorrava naquela pintura com tal vigor que todos ficaram extasiados. Dizia-se que o quadro era obra de um jovem florentino, encontrado ainda criança numa rua, criado por um velho luveiro e que aprendera a desenhar por conta própria. Um artista, agora famoso, descobrira por acaso o seu talento quando o rapazinho fora expulso de casa por ter amarrado e quase sufocado a cadelinha predileta da patroa, desejando apenas desenhá-la.

Do aprendiz de luveiro surgira um grande artista — disso testemunhava tanto o quadro mencionado como, sobretudo, o outro, maior, que se encontrava ao lado. Nele havia apenas uma figura: um adorável rapazinho esfarrapado dormia profundamente, sentado sobre o javali de bronze do Beco Porta Rossa (O Javali de Bronze é uma cópia; o original é de mármore e encontra-se na Galeria Palazzo degli Uffizi. — Nota do autor.).

Todos os espectadores conheciam bem aquele lugar. As mãos do menino repousavam sobre a cabeça do javali. O rosto infantil, pálido e gentil, estava vivamente iluminado pelos raios de uma lamparina suspensa diante da imagem da Madona. O quadro era maravilhoso! No canto da magnífica moldura dourada pendia uma coroa de louro, mas entre as folhas verdes enrolava-se uma fita negra e um véu negro.

O jovem artista morrera pouco tempo antes.