Conto literário

Carruagem do Diabo

Uma viúva, prestes a cometer suicídio por luto, é enganada por demônios que assumem a forma de seu falecido marido, mas sua fé e o sinal da cruz a salvam da condenação eterna, levando-a a dedicar sua vida a Deus.

PDF

Carruagem do Diabo

A viúva chorava pelo marido — dia e noite chorava.

Ao completar-se o quadragésimo dia, uma angústia tão grande a acometeu que ela pegou umas cordas e foi ao celeiro para se enforcar.

A noite era lunar e silenciosa, muito silenciosa.

Já havia a viúva colocado o laço em seu pescoço de cisne, quando de repente ouviu: um carro rangia e parecia trazer vozes de alguém conhecido.

Prestou atenção.

O carro aproximava-se dos portões.

A viúva tirou o laço do pescoço, ficou parada, admirada — quem seria?

Batiam nos portões.

Foi abrir...

Abriu a porteira — e soltou um grito de espanto.

Lá estava seu marido, e com ele mais seis homens.

Estavam sentados no carro — um homem ao lado do outro, todos bem vestidos.

A mulher olhava, sem acreditar nos próprios olhos.

— Por que me recebes assim? — disse o marido. — Acaso já me esqueceste?

— Sim, meu pombinho, sim, meu queridinho... De onde vens?!

— E tu pensaste que eu tinha morrido?!

— Então quem foi que eu enterrei?

— Que coisa engraçada aconteceu. Enterraste um cão de caça, enquanto eu estou vivo e saudável até agora. Senta-te — vamos partir...

— Para onde, meu amado?

— Senta-te, digo eu — e saberás. Estes são meus companheiros.

A mulher subiu no carro.

O marido chicoteou o cavalo com toda a força. O carro disparou — levantando poeira.

Os homens estavam sentados, calados — como se fossem mudos.

O carro saiu da aldeia.

A mulher começou a suspeitar para onde a levavam.

O marido ria.

— Para uma nova casa — disse o marido —, para uma nova cabana.

— Ai, como me assustas!

— Consideras-me morto — por isso te assusto...

Seguiam em direção ao rio — a mulher sabia que ali havia um lugar profundo e um precipício.

— Vamos cair! — exclamou ela.

— Nada temas...

O carro saltou sobre o rio — como um pássaro.

Um medo tão grande tomou conta da mulher que ela ficou sentada, tremendo, os dentes batendo uns contra os outros.

Olhou à frente — havia uma floresta — sem estrada alguma!

O carro avançava diretamente contra os pinheiros. Os pinheiros afastaram-se — abrindo caminho.

— Oh, tenho medo! — queixava-se a mulher.

— Fica quieta, fica quieta! — disse o marido. — Logo chegaremos!

A mulher viu que havia uma pequena igreja na floresta.

— Não estão indo bem, rapazes — franziu a testa o marido. — Virem para a esquerda.

O cavalo relinchou — faíscas saíram de suas narinas.

— Virem para a esquerda! — ordenou ele.

A mulher agitava-se.

— Fica quieta, digo eu — imóvel! — gritou o marido para ela.

Mas ela, assim que passaram pela igrejinha, fez o sinal da cruz.

O carro tremeu — deu um salto. — A mulher foi arremessada para dentro de um arbusto espinhoso.

— Ah, malditos, quase chegamos — ouviu-se dizer dentro do carro.

E a mulher viu que no carro estavam sete demônios — e o maior deles era aquele que se transformara em seu marido.

O carro girou num redemoinho de fogo e desapareceu através da terra.

De manhã, a mulher voltou para casa, toda arranhada, caiu no alpendre e adormeceu.

Dormiu três dias — pensaram que tinha morrido —, mas no quarto dia abriu os olhos e disse:

— Levem-me ao convento, boas pessoas, quero tornar-me freira.