Conto literário

Escaravelho

Um besouro de esterco arrogante, que se sente injustiçado por não receber ferraduras de ouro como o cavalo do imperador, embarca numa jornada cheia de peripécias onde descobre que a verdadeira valorização vem da experiência e da mudança de perspectiva, não de recompensas materiais ou status imposto.

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Escaravelho

O cavalo do imperador foi honrado com ferraduras de ouro, uma em cada pata. Por quê?

Ele era lindo de se ver, com pernas finas, olhos inteligentes e uma crina sedosa que caía sobre seu pescoço como um longo manto. Carregava seu senhor na fumaça da pólvora, sob uma chuva de balas, ouvia seu assobio e zumbido e ele mesmo se defendia dos inimigos que avançavam. Lutou por vida ou morte contra eles, num único salto transpôs com seu cavaleiro o cavalo tombado do inimigo e assim salvou a coroa de ouro do imperador e a própria vida deste, que vale mais que uma coroa de ouro. Eis por que foi honrado com ferraduras de ouro, uma em cada pata. E o escaravelho já estava lá.

— Primeiro os grandes deste mundo, depois os pequenos! — disse ele. — Embora, propriamente falando, não seja questão de grandeza! — E estendeu suas perninhas magras.

— O que queres? — perguntou o ferreiro.

— Ferraduras de ouro! — respondeu o escaravelho.

— Parece que não estás em teu juízo! — disse o ferreiro. — Também tu queres ferraduras de ouro?

— Sim! — respondeu o escaravelho. — Em que sou pior daquele enorme animal, que ainda precisa ser cuidado? Limpam-no, alimentam-no e dão-lhe de beber! Acaso eu não sou também dos estábulos reais?

— Mas por que dão ferraduras de ouro ao cavalo? — perguntou o ferreiro. — Compreendes isso?

— Compreendo? Compreendo que me querem ofender! — disse o escaravelho. — Isto é uma ofensa direta! Não suportarei, partirei para onde meus olhos me levarem!

— Suma-te! — disse o ferreiro.

— Groseiro! — respondeu o escaravelho, rastejou para fora do estábulo, voou um pouco e encontrou-se num belo canteiro de flores, onde exalavam o perfume das rosas e da lavanda.

— É verdade que aqui é maravilhoso? — perguntou ao escaravelho uma joaninha de asas duras, toda pintada de pontinhos pretos. — Como aqui cheira doce, como tudo é bonito!

— Bem, estou acostumado ao melhor! — respondeu o escaravelho. — Achais que aqui é esplêndido?! Nem sequer há um monte de estrume!..

E seguiu adiante, à sombra de uma grande goiveira; pelo caule rastejava uma lagarta.

— Como o mundo de Deus é belo! — disse ela. — O sol aquece! Que alegria, que prazer! E depois que eu finalmente adormecer ou morrer, como se diz, acordarei já como borboleta!

— Sim, sim, imagina! — disse o escaravelho. — Assim vamos nós voar como borboletas! Sou dos estábulos reais, mas mesmo lá ninguém, nem mesmo o cavalo favorito do imperador, que agora usa minhas ferraduras de ouro, imagina nada disso. Ganhar asas, voar?! Sim, é assim que vamos voar agora! — E ele voou. — Não queria ficar zangado, mas acaba-se por se zangar sem querer!

Então ele caiu numa grande clareira, deitou-se, deitou-se e acabou por adormecer.

Meu Deus, que chuva torrencial começou a cair! O escaravelho acordou com esse barulho e quis logo rastejar para dentro da terra, mas qual quê. Debateu-se, debateu-se, tentou nadar tanto de costas quanto de barriga — voar nem pensar —, mas tudo em vão. Não, realmente, não sairia dali vivo! E ficou deitado onde estava.

A chuva parou um pouco; o escaravelho limpou a água dos olhos e viu não longe algo branco; era um pano que as mulheres tinham estendido para alvejar; o escaravelho chegou até ele e enfiou-se numa dobra do pano molhado. Claro que não era o mesmo que enterrar-se no estrume quente do estábulo, mas nada melhor se apresentava ali, e ele ficou deitado lá todo o dia e toda a noite — a chuva continuava a cair. De manhã o escaravelho saiu; estava terrivelmente irritado com o clima.

Sobre o pano estavam sentadas duas rãs; seus olhos brilhavam de satisfação.

— Que tempo delicioso! — disse uma. — Que frescor! Este pano retém a água maravilhosamente! Até minhas patas traseiras começaram a coçar: dava vontade de nadar!

— Gostaria de saber — disse a outra — se alguma andorinha, que voa tão longe, encontrou em algum lugar um clima melhor que o nosso? Tais chuvas, tal umidade — é maravilhoso! Realmente, é como estar sentado numa vala úmida! Quem não se alegra com tal tempo, esse não é filho de sua pátria!

— Então vocês nunca estiveram nos estábulos reais? — perguntou-lhes o escaravelho. — Lá é úmido, quente e cheira maravilhosamente! Foi a isso que me acostumei! Lá o clima é do meu agrado, mas não se pode levá-lo consigo na viagem! Não haverá neste jardim pelo menos uma estufa, onde pessoas distintas como eu possam encontrar abrigo e sentir-se em casa?

Mas as rãs não o compreenderam ou não quiseram compreender.

— Nunca faço a mesma pergunta duas vezes! — declarou o escaravelho, repetindo sua pergunta três vezes e mesmo assim sem obter resposta.

O escaravelho seguiu adiante e topou com um caco de pote. Não deveria estar ali deitado, mas uma vez que estava, debaixo dele podia-se encontrar abrigo. Debaixo dele viviam várias famílias de ácaros. Não precisavam de espaço — bastava-lhes a companhia. As mães-ácaro distinguem-se por ternura maternal, e por isso cada filhote era uma maravilha de inteligência e beleza.

— Nosso filho está noivo! — disse uma mamãe. — Que inocência querida! Seu sonho mais profundo é rastejar até o ouvido de um padre. Ainda é muito criança; o noivado o conterá de loucuras. Ah, que alegria para uma mãe!

— E nosso filho — disse outra — mal saiu do ovo e já está fazendo travessuras! Que vivaz! Bem, é preciso que a juventude extravase! Isso é uma grande alegria para a mãe! Não é verdade, senhor escaravelho? — Elas reconheceram o recém-chegado pela sua figura.

— Ambas tendes razão! — disse o escaravelho, e as mães-ácaro convidaram-no a rastejar até elas, na medida em que conseguia enfiar-se debaixo do caco.

— Precisais ver também os meus filhotes! — disse uma terceira, e depois uma quarta mamãe. — Ah, são os filhotes mais queridos e tão divertidos! Comportam-se sempre bem, desde que não tenham dor de barriga — e disso nesta idade não se pode escapar!

E cada mamãe falava de seus filhotes; os filhotes também intervinham na conversa e usavam seus ácaros nas caudas — puxavam com eles os bigodes do escaravelho.

— Que coisas não inventam esses travessos! — disseram as mamães, suando de comoção; mas tudo isso já cansara o escaravelho, e ele perguntou quão longe estava ainda a estufa.

— Oh, longe, longe! Está do outro lado da vala! — disseram em uníssono as mães-ácaro. — Espero que nenhum dos meus filhos pense em ir tão longe, senão eu morro!

— Bem, eu tentarei chegar lá! — disse o escaravelho e partiu, sem se despedir — isso é o máximo de elegância.

Na vala encontrou seus parentes, outros escaravelhos como ele.

— E nós vivemos aqui! — disseram eles. — Temos aqui grande conforto! Seja bem-vindo ao nosso lugar suculento! Decerto estás cansado da viagem?

— Sim! — respondeu o escaravelho. — Enquanto chovia, fiquei deitado sobre o pano, e tal limpeza esgota qualquer um, quanto mais a mim. Tive de ficar também debaixo de um caco de barro, numa corrente de ar, e acabei pegando reumatismo na asa anterior! Finalmente é bom encontrar-se entre os seus!

— Talvez venhas da estufa? — perguntou o mais velho dos escaravelhos.

— Sobe mais alto! — disse o escaravelho. — Sou dos estábulos reais; lá nasci com ferraduras de ouro nas patas. E viajo por missão secreta. Mas não me façais perguntas, de qualquer forma nada direi.

E o escaravelho rastejou com eles para a lama gordurosa. Ali estavam sentadas três jovens damas da mesma espécie, rindo sem saber o que dizer.

— Ainda não estão noivas! — disse a mãe, e elas tornaram a rir, desta vez de constrangimento.

— Não encontrei damas mais belas nem mesmo nos estábulos reais! — disse o escaravelho viajante.

— Ah, não estragues minhas meninas! E não fales com elas se não tens intenções sérias. Aliás, decerto as tens, e dou-te minha bênção!

— Viva! — gritaram os demais, e o escaravelho tornou-se noivo. Ao noivado seguiu-se o casamento — por que adiar?

O dia seguinte passou bem, o segundo assim-assim, e no terceiro já era preciso pensar no sustento da esposa, e talvez dos filhos. "Fui mesmo enganado!", disse consigo. "Pois eu também os engano!" E assim fez — partiu. Um dia sem ele, uma noite sem ele — a esposa ficou viúva. Outros escaravelhos declararam que haviam acolhido na família um verdadeiro vagabundo. Ora pois! A esposa agora ficara às suas custas!

— Então que volte a ser considerada uma donzela! — disse a mamãe. — Que viva comigo como antes. Cuspamos nesse canalha que a abandonou!

E ele atravessou a vala numa folha de repolho. Pela manhã apareceram duas pessoas, viram o escaravelho, pegaram-no e começaram a virá-lo nas mãos. Ambos eram extremamente sábios, especialmente o menino.

— "Alá vê o escaravelho negro sobre a pedra negra da montanha negra", não é assim que diz o Alcorão? — perguntou ele e, chamando o escaravelho pelo nome em latim, disse a que classe de insetos pertencia. O sábio mais velho aconselhou o menino a não levar o escaravelho para casa — não valia a pena, eles

já havia exemplares igualmente bons. O discurso pareceu grosseiro ao escaravelho; ele simplesmente voou das mãos dos cientistas. Agora suas asas estavam secas, e ele pôde voar bastante longe, chegou até a estufa e entrou nela com muita facilidade — uma janela estava aberta. Tendo entrado ali, o escaravelho apressou-se em enterrar-se no esterco fresco.

— Ah, que maravilha! — disse ele.

Logo adormeceu e sonhou que o cavalo do imperador havia morrido, e que ele próprio, o senhor escaravelho de esterco, recebera suas ferraduras de ouro, além de lhe prometerem mais duas. Que prazer! Ao acordar, o escaravelho saiu e olhou em volta. Que luxo! Enormes palmeiras espalhavam no alto suas folhas como leques, através das quais o sol透passava; em baixo, por toda parte, verdejava a grama, fervilhavam flores vermelho-fogo, âmbar-amarelas e brancas como neve recém-caída.

— Eis uma vegetação incomparável! Que gostoso será quando tudo isso apodrecer! — disse o escaravelho de esterco. — Um excelente celeiro! Aqui, certamente, vive algum dos meus parentes. Preciso sair à procura, encontrar alguém com quem possa fazer amizade. Pois sou orgulhoso e disso me glorio! — E o escaravelho rastejou, pensando em seu sonho, no cavalo morto e nas ferraduras de ouro.

De repente, uma mão o agarrou, apertou-o, começou a girá-lo e virá-lo...

O filho do jardineiro entrara na estufa com um companheiro; viram o escaravelho de esterco e resolveram divertir-se com ele. Envolveram o escaravelho numa folha de videira e colocaram-no no bolso quente das calças. Ele começou a mexer-se, a escaladar, mas o menino pressionou-o com a mão e correu com o companheiro até o fundo do jardim, junto a um grande lago. Ali colocaram o escaravelho num velho sapato de madeira quebrado, fixaram no meio dele uma lasca como mastro, amarraram o escaravelho ao mastro com um fio de lã e lançaram o sapato à água. Agora o escaravelho tornara-se capitão e deveria embarcar numa viagem.

O lago era imenso; para o escaravelho de esterco parecia que navegava pelo oceano, e isso o impressionou tanto que ele caiu de costas e agitou as perninhas.

A correnteza afastava o sapato da margem, mas assim que ele se distanciava um pouco, um dos meninos arregaçava as calças, chapinhava na água e puxava-o de volta. Mas o sapato tornou a afastar-se, e justamente nesse momento os meninos foram chamados com tanta insistência para casa que, na pressa, esqueceram-se completamente do sapato. O sapato, porém, era levado cada vez mais para longe. Que horror! O escaravelho não podia voar — estava amarrado ao mastro.

Uma mosca veio visitá-lo.

— Que tempo maravilhoso! — disse ela. — Aqui pode descansar, aquecer-se ao sol! Está muito bem aqui.

— Fala sem saber o que diz! Não vê acaso que estou amarrado?

— Eu não! — disse a mosca e foi embora.

— Agora conheci o mundo! — disse o escaravelho de esterco. — Como é baixo! Só eu sou decente! Primeiro privam-me das ferraduras de ouro, depois obrigam-me a deitar sobre tela molhada, ficar exposto às correntes de ar e, finalmente, impõem-me uma esposa! Mal dou um passo audacioso para o mundo, olho em redor e observo, aparece um moleque e lança-me, amarrado, num mar selvagem! Enquanto isso, o cavalo do imperador exibe-se com suas ferraduras de ouro! Eis o que mais me atormenta! Mas neste mundo não se deve esperar justiça! Minha história é muito interessante, mas de que serve se ninguém a conhece! Aliás, o mundo nem merece conhecê-la; caso contrário, ter-me-iam dado as ferraduras de ouro quando o cavalo do imperador esticou as patas. Se eu tivesse recebido as ferraduras de ouro, teria sido o ornamento da cavalariça; agora, porém, pereci para eles, o mundo perdeu-me, e está tudo acabado!

Mas o fim de tudo, aparentemente, ainda não chegara: no lago apareceu um barco, e nele estavam sentadas algumas moças.

— Lá vai navegando um sapato de madeira! — disse uma delas.

— E um pobre inseto está firmemente amarrado! — disse outra.

Aproximaram-se do sapato, apanharam-no; uma das moças tirou uma tesoura e cortou cuidadosamente o fio de lã, sem causar ao escaravelho o menor dano. Ao chegar à margem, colocou-o sobre a grama.

— Rasteja, rasteja; voa, voa, se puderes! — disse-lhe ela. — A liberdade é uma coisa maravilhosa!

E o escaravelho de esterco voou diretamente para uma janela aberta de algum grande edifício; ali, cansado, deixou-se cair sobre a crina fina, macia e longa do cavalo favorito do imperador, que estava na cavalariça, a própria cavalariça do escaravelho. O escaravelho agarrou-se firmemente à crina do cavalo, esforçando-se por recuperar o fôlego e recompor-se da fadiga.

— Ora, eis-me sentado sobre o cavalo favorito do imperador, como um cavaleiro! Que digo eu?! Agora tudo me está claro! Esta sim é uma ideia! E correta! "Por que razão o cavalo mereceu as ferraduras de ouro?" — perguntou-me então o ferreiro. Agora compreendo! Mereceu-as por minha causa!

E o escaravelho alegrou-se novamente.

— A viagem esclarece os pensamentos! — disse ele. O sol brilhava diretamente sobre ele e brilhava tão belamente! — O mundo, afinal, não é assim tão mau! — continuou a raciocinar o escaravelho de esterco. — Basta saber como lidar com ele!

E como não haveria de ser bom o mundo, se o cavalo favorito do imperador mereceu as ferraduras de ouro apenas porque um escaravelho de esterco montara sobre ele?

— Agora irei rastejar até outros escaravelhos e contar-lhes o que fizeram por mim! Contarei também todas as delícias de uma viagem ao estrangeiro e direi que, de ora em diante, ficarei em casa até que o cavalo desgaste suas ferraduras de ouro.