Conto literário

O Príncipe Feliz

A estátua do Príncipe Feliz e uma andorinha sacrificam suas próprias riquezas e vidas para aliviar o sofrimento dos pobres da cidade, demonstrando que a verdadeira felicidade reside na compaixão e no amor altruísta, sendo finalmente recompensadas no céu.

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O Príncipe Feliz

Em certa cidade, sobre um alto pedestal, fora erguida a estátua do Príncipe Feliz. O Príncipe estava todo dourado, inteiramente coberto por finas lâminas de ouro. No lugar dos olhos, tinha safiras, e um grande rubi escarlate brilhava na sua espada.

Decerto, era um príncipe extremamente belo!

— Ele é tão elegante quanto o galo no topo da torre! — observou acerca dele um dos dignitários locais, que desejava fama por seu refinado entendimento da arte. — Mas, naturalmente, o galo é muito mais útil — acrescentou, receoso de que suspeitassem que ele não zelava pelos interesses do povo.

E, de fato, ele não os zelava.

— Toma como exemplo o Príncipe Feliz — dizia uma mãe terna ao seu filhinho, que chorava sem parar pedindo que lhe dessem a lua. — O Príncipe Feliz nunca faz birras.

— Ah, estou muito, muito contente por haver ainda pelo menos um feliz neste mundo — sussurrava um misantropo sombrio, contemplando a magnífica estátua.

— Decerto, ele parece um verdadeiro anjo! — exclamavam os escolares, saindo ordenadamente da igreja em vestidos vermelho-vivo e aventais brancos.

— De onde sabeis tudo isso? — perguntou o professor de matemática. — Pois nunca vistes nenhum anjo.

— Sim, mas frequentemente os vemos quando sonhamos — respondiam os escolares.

O matemático franziu a testa e olhou para eles com severidade. Não lhe agradavam aqueles sonhos infantis.

Certa noite, uma andorinha voava sobre aquela cidade. Suas companheiras já haviam partido para o Egito havia sete semanas, mas ela permanecera ali. Permanecera porque estava perdidamente apaixonada por uma delgada e esguia cana. A cana correspondia ao seu amor.

A andorinha notara a cana na primavera, bem cedo pela manhã, enquanto perseguia uma mosca gorda e dourada; ficou tão encantada com a graça do porte da cana que esqueceu a mosca e iniciou conversa com ela.

— Ah, meu coração arde de paixão por ti! — exclamou a andorinha, que tinha o hábito de fazer tudo diretamente, sem rodeios. E a cana inclinou-se profundamente em resposta.

Então a andorinha começou a voar em círculos acima dela, tocando de vez em quando a água com a asa e deixando atrás de si rastros prateados. Assim manifestava sua paixão.

E essa relação durou entre eles todo o verão.

— Que ligação tão absurda! — chilreavam as outras andorinhas. — Afinal, a cana não tem nada dentro de si e possui uma multidão de parentes!

De fato, todo o rio estava cheio de caniços.

Mas chegou o outono, e todas as suas companheiras partiram viagem.

A andorinha sentiu-se solitária. Já começava a cansar-se da ligação com a cana.

— Ah, ela está sempre calada — dizia a andorinha — e tenho a impressão de que talvez seja uma coquete. Não é à toa que flerta com cada ventinho que passa...

Com efeito, assim que algum vento soprava, a cana imediatamente iniciava galanteios com ele.

— Além disso, ela tem inclinações tão caseiras. Enquanto isso, viajar é a minha paixão, e minha esposa deve amar viagens.

Certo dia, então, a andorinha disse-lhe:

— Vamos embora daqui.

Mas a cana apenas balançou a cabeça; estava demasiado apegada ao seu lugar natal.

— Ah, brincaste com o meu amor! — gritou a andorinha. — Vou para as pirâmides. Adeus!

E partiu.

Voou o dia inteiro, sem parar. Ao anoitecer, chegou à cidade.

— Onde poderia instalar-me aqui? — perguntou. — Será que a cidade não se preocupou em receber-me dignamente?

Foi então que viu a estátua sobre a alta coluna.

— Eis que está perfeito. Instalarei-me aqui: excelente localização e ar fresco em abundância.

E acomodou-se junto aos pés do Príncipe Feliz.

— Tenho um quarto dourado! — disse ela, olhando ao redor com dignidade. Já se preparava para dormir e cobrira a cabeça sob a asa, quando de repente uma pesada gota de água caiu sobre ela.

— Que maravilhas são estas! — exclamou. — Pois no céu não há nenhuma nuvem. As estrelas estão tão claras e puras; de onde viria a chuva?... Este clima setentrional é simplesmente insuportável.

Mas então caiu outra gota.

— De que serve esta estátua, se nem mesmo pode proteger da chuva? Procurarei um lugar mais quentinho, talvez junto a alguma chaminé.

Mas antes que pudesse estender as asas, caiu uma terceira gota. A andorinha levantou os olhos e viu — oh, o que viu ela!

Os olhos do Príncipe Feliz estavam cheios de lágrimas. Lágrimas rolavam por suas faces douradas.

E seu rosto dourado era tão belo sob os raios da lua que a pequena andorinha encheu-se de compaixão.

— Quem és tu? — perguntou ela.

— Sou o Príncipe Feliz.

— Mas, nesse caso, por que choras?... Pois fiquei toda encharcada com tuas lágrimas...

— Quando eu era vivo e possuía um coração humano, não sabia o que eram lágrimas — respondeu o Príncipe Feliz. — Não sabia porque minha morada era o castelo Sans-Souci, onde era proibida a entrada de qualquer infortúnio. Durante o dia, divertia-me com meus companheiros no jardim, e à noite dirigia as danças no Grande Salão. O jardim era cercado por uma muralha altíssima, e nem mesmo me ocorria perguntar o que acontecia além dela. Tudo ao meu redor era tão belo, e os cortesãos chamavam-me de Príncipe Feliz. Sim, eu era feliz, se é que há felicidade nos prazeres. Assim vivi, e assim morri. Agora, já não estando vivo, colocaram-me aqui, tão alto que minha vista alcança tudo o que há de baixo, miserável e repugnante nesta minha capital. E embora meu coração seja agora de estanho, nada mais me resta senão chorar, chorar sem fim!

— Ah! Então não és todo de ouro! — disse a andorinha consigo mesma. Era bastante bem-educada para não dizer isso em voz alta.

— Lá longe, naquela rua transversal — continuou a estátua com voz suave e melodiosa —, há uma pobre casinha inclinada. Uma janela está aberta, e vejo uma mulher junto à mesa. Seu rosto está exausto, suas mãos calejadas e vermelhas, todas picadas pela agulha, pois é costureira. Ela borda arabescos de miçangas na bainha de um vestido de seda que hoje usará no baile da corte uma das damas de honra prediletas da rainha. E no canto, numa cama, jaz febril um menininho, implorando constantemente que lhe deem uma laranja. A mãe não tem nada além de água do rio, e a cada instante desfaz-se em lágrimas. Andorinha, pequenina andorinha! Não levarias para ela o rubi da minha espada? Meus pés estão presos ao pedestal, e não posso mover-me deste lugar.

— Esperam-me no Egito — respondeu a andorinha. — Minhas companheiras voam agora ao longo do Nilo e conversam com os magnífi cos lótus. Em breve irão dormir na tumba do grande rei. Lá repousa também ele próprio — num sarcófago pintado. Está vestido de tecido amarelo e embalsamado com ervas aromáticas. Em torno do pescoço traz uma corrente de jade verde-pálido, e suas mãos estão secas como folhas de outono...

— Andorinha, andorinha, pequenina andorinha! Não poderias ficar comigo apenas mais uma noite? A sede do menino é tão grande, e a dor da mãe tão imensa!

— Meninos não me agradam muito — respondeu a andorinha. — Neste verão, certa vez, enquanto eu repousava junto ao rio, os dois filhos da costureira atiraram pedras em mim. Claro, como poderiam acertar! Nós, andorinhas, somos rápidas demais para isso. Além disso, desde criança fui famosa por minha agilidade, mas — concorde você mesmo — isso de certo modo demonstra falta de respeito.

Contudo, o Príncipe Feliz estava tão entristecido que a pequena andorinha teve pena dele.

— Aqui o clima é muito rigoroso — disse ela —, mas que seja; ficarei contigo mais uma noite.

— Obrigado, pequenina andorinha — disse o Príncipe, comovido.

Então a andorinha arrancou o grande rubi da espada do Príncipe e voou com ele sobre os telhados da cidade.

Passou junto ao campanário da catedral, onde havia anjos de mármore branco. Passou junto ao castelo e ouviu sons de dança. Eis que uma bela jovem saiu à varanda juntamente com seu amado.

— Que estrelas maravilhosas — disse ele a ela — e como é embriagador o poder do amor.

— Espero que meu vestido fique pronto a tempo para o baile da corte — respondeu ela. — Mandei cobri-lo com arabescos de miçangas, mas as costureiras são tão preguiçosas...

Voou sobre o rio e viu as luzes nos mastros dos navios. Voou sobre o Gueto e viu velhos judeus — e finalmente aproximou-se da pobre casinha e espiou para dentro. O menino jazia febril, esparramado na cama, e a mãe adormecera levemente, pois estava tão cansada! A andorinha entrou no aposento e depositou o grande rubi sobre a mesa, junto ao dedal.

Depois começou a voar em círculos sobre a cama, abanando o rosto do menino

com suas asinhas.

— Oh, como estou com frio! — disse o menino. — Isso, decerto, é para melhor.

E ele novamente mergulhou na sonolência.

E a andorinha retornou ao Príncipe Feliz e contou-lhe tudo o que fizera.

— O curioso é que agora me sinto completamente aquecida, embora o tempo tenha bastante piorado.

— Isso é porque praticaste uma boa ação! — explicou-lhe o Príncipe Feliz.

A pequena andorinha refletiu sobre suas palavras e imediatamente adormeceu.

Com ela era sempre assim: bastava que começasse a pensar para que a sonolência a dominasse.

Ao amanhecer, voou até o rio para banhar-se.

— Que maravilha! — disse um professor de ornitologia que por acaso se encontrava junto ao mar. — Uma andorinha no inverno!

E publicou a respeito uma carta detalhada no jornal local. Todos liam essa carta: estava cheia de palavras tão complicadas que ninguém as compreendia.

— À noite — para o Egito! — pensava a andorinha, e essa ideia a deixava nervosamente excitada.

Visitou todos os monumentos da cidade e permaneceu longamente sentada no telhado de uma igreja.

Onde quer que aparecesse, os pardais olhavam para ela com espanto e piavam uns aos outros:

— Quem é esse estranho! Quem é esse estranho! Quem é esse estranho!

Assim se divertiu ela no último dia de sua permanência naquela cidade.

— Andorinha, andorinha, pequenina andorinha! Não ficarias comigo mais uma noite? — perguntou o Príncipe Feliz.

— Esperam-me no Egito — respondeu a andorinha. — Amanhã minhas companheiras partirão para a segunda catarata. Lá, entre os juncos, descansam os hipopótamos, e sobre um grande trono de granito está sentado o deus Mêmnon. Durante toda a noite ele contempla as estrelas, e quando brilha a estrela da manhã, escapa-lhe um grito de entusiasmo. Ao meio-dia, os leões amarelos descem ao rio para beber. Seus olhos são como berilos verdes, e com seu rugido abafam o estrondo da catarata.

— Andorinha, andorinha, pequenina andorinha! — respondeu o Príncipe Feliz. — Ali, naquele extremo da cidade, vejo um jovem num sótão alto. Inclina-se sobre uma mesa coberta de papéis, e ao lado dele há um ramo de violetas murchas. Seus cachos são encaracolados, os lábios vermelhos como romã, e os olhos grandes e pensativos. Precisa terminar uma peça para o diretor do teatro, mas não tem inspiração. Apagou-se o fogo em seu encierro, e o jovem enfraqueceu de fome.

— Bem, está certo, ficarei contigo mais uma noite! — concordou a andorinha, que afinal de contas tinha um bom coração. — Onde está teu outro rubi?

— Não tenho mais rubis. Meus olhos são tudo o que me resta agora. Esses olhos foram feitos das mais raras safiras e, há mil anos, foram trazidos da Índia. Arranca um deles e leva-o ao jovem. Que ele o venda a um ourives e compre comida e lenha. Assim conseguirá terminar seu trabalho.

— Isso nunca farei, querido Príncipe — suplicou a andorinha, chorando. — Não tenho forças para privar-te da visão...

— Andorinha, andorinha, pequenina andorinha! Faze como eu te ordeno — disse o Príncipe.

A andorinha teve de arrancar o olho do Príncipe e voar até o distante sótão. Foi-lhe fácil entrar ali, pois o telhado estava furado. Deslizando por esse buraco, a andorinha encontrou-se dentro do cubículo.

O jovem estava sentado, com a cabeça entre as mãos, e não ouviu o sussurro das asas da andorinha; mas, quando levantou os olhos, notou junto às violetas murchas uma bela safira.

— No entanto, começam a valorizar-me e compreender-me! — exclamou ele. — Isto vem de algum admirador importante. Bem, agora dedicarmo-nos-emos à nossa drama, agora é só aguentar! — E imediatamente ficou alegre.

No dia seguinte, a andorinha dirigiu-se ao porto. Sentou-se no mastro de um grande navio e viu os marinheiros descarregando certas mercadorias.

— E eu parto para o Egito! — gritou a andorinha, mas ninguém a compreendeu.

Somente à tarde, ao luar, voou ela até o Príncipe Feliz.

— Vim desejar-te boa noite — disse ela. — Parto para o Egito.

— Andorinha, andorinha, pequenina andorinha! — suplicou o Príncipe Feliz. — Fica comigo apenas mais uma noite. Apenas uma!

— Agora é inverno — respondeu a andorinha —, e logo cairá aqui neve fria. Mas no Egito o sol brilha tão ardente sobre as palmeiras verdes, e os crocodilos jazem no pântano, olhando preguiçosamente em redor. Minhas companheiras já construíram ninho no templo de Vaaben, e os pombos brancos observam-nas e arrulham. Não, Príncipe, não me peças; preciso voar para o Egito, mas, certamente, nunca te esquecerei e na próxima primavera trar-te-ei de volta duas pedras preciosas, em lugar daquelas que deste aos homens. O rubi será mais vermelho que a rosa, e a safira mais azul que os altos céus...

— Ah, lá embaixo, na praça, está sempre uma menininha vendendo fósforos. Hoje ela os deixou cair numa vala, e eles se perderam. Vês, ela chora. O pai bater-lhe-á fortemente se ela voltar sem dinheiro. Arranca meu outro olho e leva-o a ela; assim o pai não a espancará.

— Ora não — respondeu a andorinha. — Passar contigo mais uma noite, isso passarei. Mas arrancar teu olho não o farei, pois então ficarás completamente cego.

— Andorinha, andorinha, pequenina andorinha! Faze o que te mandam — disse o Príncipe.

Restava-lhe arrancar-lhe também o outro olho e voar com ele até a distante praça. Logo encontrou a pequena vendedora de fósforos e deixou cair a pedra preciosa na palma de sua mãozinha.

— Que vidro tão lindo! — exclamou a menina e, rindo, correu para casa.

A andorinha retornou ao Príncipe Feliz.

— Agora estás completamente cego — disse ela —, e eu ficarei contigo para sempre.

— Não, querida andorinha, deves partir imediatamente para o Egito.

— Não, quero ficar contigo eternamente — disse ela, e adormeceu aos pés do Príncipe.

No dia seguinte, subiu ela ao seu ombro e começou a contar-lhe o que vira em terras estranhas.

Contou-lhe sobre os belos íbis, que em longa falange permanecem às margens do Nilo e com seus bicos capturam peixes dourados; sobre a esfinge, velha como o mundo, que vive no deserto e tudo sabe; sobre os mercadores que caminham lentamente junto de seus camelos, com cachimbos de âmbar na boca; sobre o senhor das Montanhas da Lua, negro como ébano, que adora um grande cristal; sobre a grande serpente verde que dorme numa palmeira — a serpente tem vinte sacerdotes, que a alimentam com bolos de mel; sobre os pigmeus que viajam pelo lago sobre largas folhas lisas e estão sempre em guerra com os vaga-lumes.

— Ah, querida andorinha — disse o Príncipe Feliz —, contas-me tantas coisas maravilhosas. Mas a coisa mais maravilhosa de todas é o sofrimento humano. Vai, pois, amigo meu, sobrevoa toda a cidade e depois retorna aqui e conta-me tudo quanto vires.

A andorinha partiu e logo percebeu que os ricos se divertiam em suas magníficas casas, enquanto os pobres permaneciam junto aos portões. Entrou pelos becos escuros e viu ali rostinhos pálidos de crianças magras, olhando languidamente para as ruas negras. Debaixo da ponte, pulavam umas sobre as outras para ao menos aquecer-se um pouco.

— Temos fome — repetiam elas. — Fome, fome!

— Fora daqui! — gritou-lhes o guarda, e elas novamente se viram na chuva.

Ela retornou ao Príncipe Feliz e contou-lhe tudo quanto vira.

— Contudo, estou coberto de ouro magnífico! — disse o Príncipe. — Tira-o de mim, folha por folha, e distribui-o aos pobres. Todos os viventes acreditam sempre que o ouro pode trazer-lhes felicidade.

E, folha por folha, a andorinha retirou o belo ouro, e o Príncipe Feliz tornou-se cinzento e sombrio.

Folha por folha, ela entregou o ouro aos pobres, e os rostos das crianças coraram, nas ruas ecoou o riso, e começaram jogos alegres.

— Agora temos pão em abundância! — gritavam as crianças.

Caiu a neve, e após ela veio o gelo. As ruas tornaram-se como prata — tanto brilhavam e reluziam. Longos pingentes de gelo, como adagas de cristal, pendiam dos telhados. Todos vestiram pelicas, e os garotos, com gorros vermelhos, começaram a patinar. Cada vez mais frio se tornava para a pobre andorinha, mas ela não queria abandonar o Príncipe Feliz, pois muito o amava. Nos fundos de uma padaria, apanhava migalhas — bastava que o padeiro desviasse o olhar por um instante — e tentava aquecer-se batendo as asas. Mas certa vez compreendeu que chegara seu fim.

Ainda teve forças para subir uma última vez ao ombro do Príncipe Feliz e sussurrar-lhe:

— Adeus, meu querido Príncipe! Permitir-me-ás, na despedida, beijar

tua mão?

— Meu amigo, estou muito feliz por finalmente ires para o Egito — disse o Príncipe. — Demoraste aqui demasiado tempo. Beija-me diretamente nos lábios, pois tornei-me tão apaixonado por ti durante este tempo.

— Não, não é para o Egito que voo — disse a andorinha. — Vou para a Morada da Morte. A morte é semelhante ao sono, não é verdade?

E ela beijou o Príncipe Feliz nos lábios e caiu morta aos seus pés.

Nesse instante, um estrondo terrível ecoou no interior da estátua, como se algo lá dentro tivesse rebentado.

Era o seu coração de estanho que se partira ao meio — faziam tanto frio.

No dia seguinte, cedo pela manhã, o prefeito passeava com os seus conselheiros lá em baixo, na praça. Ao olhar para a estátua, exclamou:

— Meu Deus! Que aspecto horrível tem o Príncipe Feliz!

— De facto, é horrível — disseram os conselheiros, que concordavam sempre e em tudo com o prefeito.

E correram precipitadamente para ver o Príncipe Feliz de mais perto.

— O rubi caiu da sua espada, os olhos também, e ele já não é dourado — disse o prefeito. — Na verdade, não é melhor do que o último dos mendigos.

— Não, na verdade, não é melhor do que o último dos mendigos! — disseram os conselheiros.

— E quanto a essa ave morta no seu pedestal — continuou o prefeito —, decididamente, devemos emitir uma ordem proibindo as aves de morrerem aqui...

E o escrivão da cidade redigiu um documento nesse sentido.

Depois, arrancaram a estátua do Príncipe Feliz.

— Uma vez que ele já não possui beleza, não serve para nada — disse um professor de estética da universidade aos seus alunos.

Depois fundiram a estátua, e o prefeito reuniu um grande conselho para decidir o que fazer com o metal.

— Naturalmente, é preciso fundir outra estátua, e, claro, ela deve ser o meu monumento — disse um dos conselheiros municipais.

— Não, a minha! — disse outro, e todos eles começaram a discutir entre si.

Quando os vi pela última vez, ainda continuavam a discutir.

— Que maravilha! — disse o mestre principal da fundição municipal. — Este coração de estanho partido não se derrete ao fogo. É mesmo de deitar fora!...

E atiraram-no para um monte de lixo, onde jazia a andorinha morta.

— Traz-me as duas coisas mais preciosas que existem nesta cidade — disse Deus a um dos Seus anjos, e o anjo trouxe-Lhe o coração de estanho e a ave morta.

— A tua escolha está correta — disse Deus —, pois no Meu jardim do Paraíso esta pequena ave cantar-Me-á eternamente louvores, e na Minha cidade dourada o Príncipe Feliz glorificar-Me-á...