— Agora vamos cavalgar muito, muito longe! — disse o menino. — Até à mansão senhorial, onde estivemos no ano passado!
As crianças galopavam em volta do relvado, e a menina — pois sabemos que era ela
era a Mãe do Sabugueiro — dizia ela:
— Bem, agora estamos fora da cidade! Vês aquela casa de camponês? Um enorme forno de pão, como um ovo gigantesco, projeta-se da parede diretamente para a estrada. Sobre a casa estende seus galhos um arbusto de sabugueiro. Ali passeia pelo pátio um galo, revolve a terra, procurando alimento para as galinhas. Olha só com que importância ele marcha! E agora estamos no alto de uma colina junto à igreja; ela ergue-se entre altos carvalhos, um dos quais está pela metade seco... E agora estamos na ferraria! Olha como brilha intensamente o fogo, como trabalham com martelos homens quase nus! As faíscas voam para todos os lados! Mas precisamos seguir adiante, mais adiante, até a propriedade senhorial!
E tudo o que a menina, sentada atrás do menino sobre a bengala, ia nomeando, passava veloz diante deles. O menino via tudo isso, enquanto, na realidade, apenas giravam pelo prado. Depois brincaram numa trilha lateral, fizeram para si um pequeno jardim. A menina tirou de sua grinalda uma flor de sabugueiro e plantou-a na terra. Ela criou raízes e brotos e logo cresceu num grande arbusto de sabugueiro, exatamente como o dos velhinhos em Nyboder, quando ainda eram crianças. O menino e a menina deram-se as mãos e também saíram a passear, mas não foram à Torre Redonda nem aos jardins de Frederiksberg. Não; a menina abraçou fortemente o menino, elevou-se com ele pelos ares, e voaram sobre a Dinamarca. A primavera sucedia ao verão, o verão ao outono, o outono ao inverno. Milhares de imagens refletiam-se nos olhos do menino e gravavam-se em seu coração, enquanto a menina não cessava de dizer:
— Isto nunca esquecerás!
E o sabugueiro exalava um perfume tão doce, tão maravilhoso! O menino aspirava tanto o aroma das rosas quanto o odor dos fresnos recém-brotados, mas o sabugueiro cheirava mais forte de tudo: pois suas flores adornavam o peito da menina, e era para ela que ele tantas vezes inclinava a cabeça.
— Como é maravilhosa aqui a primavera! — disse a menina, e encontraram-se num jovem bosque de faias. Aos seus pés florescia a doce aspérula, e da erva espreitavam maravilhosas anêmones cor-de-rosa pálido. — Oh, se a primavera reinasse eternamente no perfumado bosque de faias dinamarquês!
— Como é bom aqui no verão! — disse ela, quando passaram voando junto a uma antiga propriedade senhorial com um castelo cavalheiresco de tempos remotos. As paredes vermelhas e os frontões denteados refletiam-se nos fossos de água, onde nadavam cisnes, espiando as antigas alamedas frescas. Ondulavam, como o mar, os campos de trigo; as valas matizavam-se de flores silvestres vermelhas e amarelas; pelas cercas enrolavam-se o lúpulo selvagem e a campainha florida. E à tarde surgiu a lua grande e redonda; dos prados emanou o doce aroma do feno recém-cortado. — Isto não será esquecido jamais!
— Como é maravilhoso aqui no outono! — disse a menina, e a abóbada celeste de repente tornou-se duas vezes mais alta e mais azul. A floresta tingiu-se das cores mais belas — vermelho, amarelo, verde.
Soltaram-se os cães de caça. Bandos inteiros de caça voavam gritando sobre os túmulos, onde jazem pedras antigas cobertas de silvas. No mar azul-escuro branquejavam as velas. Velhas, moças e crianças colhiam lúpulo e lançavam-no em grandes tonéis. Os jovens cantavam canções antigas, e as velhas contavam histórias sobre trolls e duendes domésticos.
— Não pode haver lugar melhor! E como é bom aqui no inverno! — disse a menina, e todas as árvores vestiram-se de geada, seus galhos transformaram-se em corais brancos. A neve estalava sob os pés, como se todos calçassem botas novas, e do céu caíam uma após outra estrelas cadentes.