Conto literário

Nas dunas

A wealthy Spanish couple's son survives a shipwreck only to be raised in poverty on the Jutland dunes, where he endures injustice and tragedy before finding spiritual redemption and eternal peace through divine mercy.

PDF

Nas dunas

A história falará das dunas da Jutlândia, mas não começa ali, e sim muito, muito ao sul, na Espanha: pois o mar une todos os países; transportai-vos em pensamento à Espanha! Que calor há lá, que maravilha! Entre as escuras árvores de loureiro cintilam as flores púrpuras das romãzeiras; uma brisa fresca sopra das montanhas sobre os laranjais e as magníficas galerias mouriscas, com cúpulas douradas e paredes pintadas. Pelas ruas desfilam procissões de crianças, com velas e bandeiras tremulantes nas mãos, e no alto, sobre as ruas da cidade, estende-se um céu límpido e puro, salpicado de estrelas radiantes! Soam cantos, estalam castanholas, rapazes e moças giram na dança à sombra das acácias floridas; um mendigo senta-se nos degraus de uma escadaria de mármore, sacia a sede com uma melancia suculenta e depois volta a mergulhar em sua habitual sonolência, num doce sono! Sim, tudo aqui se assemelha a algum sonho maravilhoso! Tudo convida à doce preguiça, aos sonhos encantados! A tais sonhos em estado de vigília entregava-se também o jovem casal de recém-casados, coberto de todos os bens terrestres; tudo lhes fora dado: saúde, felicidade, riqueza e uma posição honrosa na sociedade.

— Ninguém pode ser mais feliz do que nós! — diziam eles sinceramente; e ainda assim faltava-lhes subir mais um degrau na escada da bem-aventurança humana, caso Deus lhes concedesse o filho esperado, um menino, imagem viva física e espiritual deles mesmos.

Uma criança feliz! Seria recebida com regozijo geral, com os mais ternos cuidados e amor, com toda a prosperidade que a riqueza e uma família nobre podem oferecer a um ser humano.

A vida era para eles uma festa perpétua.

— A vida é um dom misericordioso do amor, quase grande demais, imensurável! — disse a esposa. — E pensar que essa plenitude de bem-aventurança deve ainda crescer além da vida terrena, crescer até o infinito!... Na verdade, nem consigo lidar com esse pensamento, tão imenso ele é!

— Mas isso é até excessivamente presunçoso! — respondeu o marido. — Ora, não é, no fundo, presunção imaginar que nos espera uma vida eterna... como a dos deuses? Tornar-se semelhante aos deuses — essa ideia foi sugerida aos homens pela serpente, o pai da mentira!

— Mas tu não duvidas da vida futura? — perguntou a jovem esposa, e como que uma nuvem escura deslizou pela primeira vez pelo horizonte sem nuvens de seus pensamentos.

— A religião promete-nos isso, os sacerdotes confirmam tal promessa! — disse o jovem marido. — Mas justamente agora, sentindo-me no ápice da bem-aventurança, percebo quão arrogante e presunçoso da nossa parte é exigir, após esta vida, outra ainda, exigir a continuação de nossa felicidade! Não nos foi dado já aqui, nesta vida, tanto que não apenas podemos, mas devemos contentar-nos plenamente com ela?

— Sim, a nós foi dado muito — objetou a esposa —, mas para quantos milhares de pessoas a vida terrena é uma provação contínua; quantas pessoas desde o nascimento estão condenadas à pobreza, à humilhação, às doenças e à infelicidade! Não, se após esta vida não esperasse aos homens outra, os bens terrestres seriam distribuídos de maneira demasiadamente desigual, e Deus não seria o Juiz Sumamente Justo!

— Até o mendigo vagabundo tem suas alegrias, que à sua maneira não são inferiores às alegrias de um rei, possuidor de um palácio suntuoso! — respondeu o jovem. — E acaso, segundo teu parecer, o gado de trabalho, que é espancado, faminto e sobrecarregado, não sente o peso de seu destino terrestre? Logo, também o animal poderia exigir para si uma vida além-túmulo, considerando injusta sua baixa posição na série das outras criaturas.

— «Na casa de Meu Pai Celestial há muitas moradas», disse Cristo! — replicou a jovem mulher. — O reino dos céus é ilimitado, assim como o amor de Deus! Os animais também são Suas criaturas e, na minha opinião, nenhum ser vivo perecerá, mas alcançará aquele grau de bem-aventurança ao qual seja capaz de elevar-se!

— Bem, para mim basta esta vida! — disse o marido, abraçando sua bela esposa. A fumaça de seu cigarro levava-se da varanda aberta para o ar fresco, impregnado do aroma das flores de laranjeira e do cravo-da-índia; da rua chegavam sons de cantos e o estalar de castanholas; sobre suas cabeças brilhavam as estrelas, e nos olhos do marido fitavam os olhos ternos da esposa, resplandecentes com o fogo de um amor infinito.

— Sim, um único instante como este vale a pena de o homem nascer, vivê-lo e — desaparecer! — continuou ele, sorrindo; a jovem mulher ameaçou-o carinhosamente com o dedo, e a nuvem escura dissipou-se — eram felizes demais!

As circunstâncias combinavam-se para eles de modo tão favorável que a vida lhes prometia ainda maiores bens no futuro. É verdade que os aguardava uma mudança, mas apenas de lugar, e não de seu modo de vida feliz. O rei nomeara o jovem como embaixador junto à Corte Imperial Russa — sua origem e educação tornavam-no plenamente digno de tão honrosa designação.

O jovem possuía ele mesmo fortuna, e a jovem esposa trouxera-lhe não menos; era filha de um comerciante rico e respeitado. Um dos maiores e melhores navios deste último deveria precisamente naquele ano partir para Estocolmo; foi nele que decidiram enviar os queridos filhos, a filha e o genro, a São Petersburgo. O navio estava adornado com luxo real, por toda parte tapetes macios, seda e veludo...

Numa antiga canção, conhecida de todos nós, dinamarqueses, «sobre o príncipe inglês», conta-se como esse príncipe zarpa num navio ricamente adornado, com âncoras de ouro puro e cordame de seda. Foi precisamente desse navio que se lembraram, ao contemplar o navio espanhol: o mesmo luxo, os mesmos pensamentos à partida:

Ó, concede-nos, Deus, retornar em segurança!

Soprou um forte vento favorável, o momento da despedida foi breve. Dentro de algumas semanas o navio deveria alcançar o destino final da viagem. Mas quando já estava longe da terra, o vento acalmou, a superfície brilhante e uniforme do mar parecia congelada; a água cintilava, as estrelas resplandeciam, e no camarote luxuoso era como se houvesse uma festa.

No entanto, ao fim, todos começaram a desejar um bom vento favorável, mas ele não pensava em aparecer; e se às vezes soprava algum vento, não era favorável, e sim contrário. Semanas seguiam-se a semanas, passaram-se dois meses inteiros até que finalmente surgiu um vento propício do sudoeste. O navio encontrava-se então entre a Escócia e a Jutlândia; o vento encheu as velas e levou o navio — exatamente como na antiga canção sobre «o príncipe inglês»:

E o vento soprou, os céus escureceram; Onde abrigar-se? Onde a costa, onde o porto? Soltaram no fundo a âncora de ouro, Mas o vento maligno os empurra para a Dinamarca.

Desde então passaram-se muitos anos. Naquela época ocupava o trono da Dinamarca o jovem rei Cristiano VII; muitos eventos ocorreram nesse intervalo, muita coisa mudou, transformou-se. Lagos e pântanos tornaram-se prados viçosos, estepes transformaram-se em campos cultivados, e na costa ocidental da Jutlândia, protegidas pelas paredes das cabanas camponesas, cresceram maçãs e rosas. Mas é preciso procurá-las com o olhar: tão habilmente elas se escondem do forte vento ocidental. E ainda assim, aqui, nesta costa, é fácil transportar o pensamento até épocas ainda mais remotas do que o reinado de Cristiano VII: na Jutlândia, hoje como antigamente, estende-se uma estepe castanha sem limites, pátria dos miragens, salpicada de túmulos funerários, cortada por caminhos arenosos cheios de tocos e entrecruzados. No oeste, onde grandes rios desembocam em fiordes, continuam a estender-se prados e pântanos, protegidos do lado do mar por altas dunas. Os cumes denteados das dunas alongam-se pela costa, como uma cadeia montanhosa, interrompida em certos lugares por declives argilosos; o mar, ano após ano, vai mordendo pedaço por pedaço, de modo que os promontórios e colinas finalmente desabam, como por um terremoto. Tal era a Jutlândia naqueles tempos, quando o casal feliz navegava no navio rico.

Setembro chegava ao fim; o tempo estava ensolarado; era domingo; os sons dos sinos perseguiram-se uns aos outros, espalhando-se ao longo da costa do fiorde de Nissum. As próprias igrejas lembravam blocos de pedra talhada — cada uma fora esculpida num fragmento de rocha. O mar rolava sobre elas suas ondas, e elas permaneciam firmes, impassíveis. A maioria delas não tinha torre sineira; os sinos, fixados entre dois pilares, pendiam a céu aberto.

O culto na igreja terminou, e o povo saiu para o cemitério, no qual, então como agora, não se via nenhuma árvore, nenhum arbusto, nenhuma flor, nem mesmo uma coroa sobre as sepulturas. Apenas pequenos montículos indicavam os lugares onde repousavam os falecidos; todo o cemitério estava coberto de grama áspera e dura; o vento a agitava sem cessar. Em alguns lugares, sobre

Nos túmulos também apareciam monumentos, ou seja, troncos semipodres talhados em forma de caixão. Esses destroços eram trazidos pela floresta costeira — o mar selvagem. No mar crescem, para o habitante da costa, vigas prontas, tábuas e árvores; é o arrebentação que as lança à praia. Mas o vento e a névoa marinha logo os fazem apodrecer.

Um desses destroços jazia também sobre a sepultura infantil, para a qual se dirigiu uma das mulheres que saíram da igreja.

Ela permanecia em silêncio, com o olhar fixo no fragmento de madeira meio apodrecido. Pouco depois, seu marido juntou-se a ela. Não trocaram uma única palavra; ele tomou-a pela mão, e ambos caminharam pela estepe acastanhada e pelo pântano em direção às dunas. Caminharam longamente em silêncio; finalmente, o marido disse:

— Foi boa a pregação de hoje! Se não tivéssemos o Senhor, nada teríamos!

— Sim — respondeu a esposa —, Ele nos envia alegrias, Ele também nos envia sofrimentos! E Ele está sempre certo... Hoje nosso garotinho completaria cinco anos, se estivesse vivo.

— Realmente, é inútil que te aflijas tanto! — disse o marido. — Ele escapou feliz e encontra-se agora lá para onde também nós precisamos pedir a Deus.

Não falaram mais nada e dirigiram-se para casa. De repente, sobre uma das dunas, cuja areia não estava firmeada por vegetação alguma, ergueu-se como que uma coluna de fumaça: um forte redemoinho revolveu e fez girar a areia fina. Em seguida, passou nova rajada de vento, e o peixe pendurado nas cordas para secar começou a bater contra as paredes da casa; depois tudo novamente se acalmou; o sol ardía intensamente.

O marido e a esposa entraram em sua cabana e, após tirarem rapidamente as roupas festivas, apressaram-se em voltar às dunas, que se elevavam na praia como ondas de areia monstruosas, subitamente detidas em seu caminho. Alguma variedade de cores era trazida pelos caules pontiagudos verde-azulados da aveia das areias e da arenária, que cresciam na areia branca. Na praia reuniram-se ainda alguns vizinhos, e os homens, com esforços combinados, puxaram os barcos mais para cima na areia. O vento fortalecia-se cada vez mais, tornava-se cada vez mais cortante e frio, e, quando o marido e a esposa voltaram para casa, a areia e as pedrinhas agudas voavam diretamente contra seus rostos. Fortes rajadas de vento ceifavam as cristas brancas das ondas e as dispersavam como pó fino.

Anoiteceu; no ar parecia uivar, assobiar e gemer toda uma legião de espíritos malditos; o marido e a esposa nem sequer ouviam o estrondo do mar, embora sua cabana estivesse quase mesmo à beira-mar. A areia voava contra os vidros das janelas; as rajadas de vento ameaçavam por vezes derrubar a própria cabana. Escureceu, mas por volta da meia-noite a lua deveria aparecer.

O céu clareou, mas a tempestade rugia no mar com a mesma força de antes. O marido e a esposa já haviam se deitado há muito tempo, mas não havia como pensar em dormir numa tormenta dessas; de repente, bateram à janela, a porta entreabriu-se, e alguém disse:

— Há um grande navio encalhado no recife extremo!

Num instante, o marido e a esposa levantaram-se e vestiram-se.

A lua brilhava bastante, mas o turbilhão de areia furacânico cegava os olhos. O vento soprava com tal força que era preciso deitar-se contra ele; somente com grande dificuldade, quase rastejando, aproveitando as pausas entre as rajadas do furacão, era possível atravessar as dunas. Da praia, como penugem de cisne, voava do mar espuma salgada; o mar, com ruído e bramido, rolava ondas ferventes. Era necessário ter um olho experiente para distinguir imediatamente no mar uma embarcação. Era um magnífico navio de dois mastros; era arrastado em direção à praia através dos recifes, mas no último deles encalhou.

>

Não havia nem que pensar em prestar ajuda ao navio ou à tripulação — o mar estava demasiado enfurecido, as ondas golpeavam impiedosamente o casco da embarcação e transbordavam sobre ele... Aos pescadores pareciam ouvir-se gritos e lamentos de desespero; via-se como as pessoas no navio se agitavam, impotentes e aturdidas... Eis que se ergueu uma onda enorme e desabou sobre o gurupés. Num instante — o gurupés desapareceu; a popa elevou-se alto acima da água, e nesse momento duas figuras humanas abraçadas saltaram dela, saltaram e desapareceram nas ondas... Mais um instante, e — uma onda enorme lançou sobre as dunas um corpo... de uma jovem mulher, aparentemente sem vida. Algumas pescadoras cercaram-na, e lhes pareceu que ela ainda dava sinais de vida. Imediatamente levaram-na para a cabana mais próxima. Quão bela e terna era a pobrezinha! Certamente, uma dama de alta condição!

>

Deitaram-na numa cama miserável, sem roupa alguma de cama, coberta apenas por um cobertor de lã, mas era justamente nisso que convinha envolver a desconhecida — nada haveria de mais quente!

Conseguiram trazê-la de volta à vida, mas ela estava com febre e não tinha consciência de nada: nem do que acontecera, nem de onde se encontrava. E graças a Deus: tudo o que lhe era caro na vida jazia agora no fundo do mar. Tudo ocorrera como na canção "sobre o príncipe inglês":

Não poderia haver visão mais terrível:

O navio despedaçou-se contra o recife como vidro.

O mar lançou à praia os destroços do navio; das pessoas, apenas uma jovem mulher sobreviveu. O vento ainda uivava, mas na cabana, por alguns instantes, reinou o silêncio: a jovem mulher adormecera; depois começaram as dores e os gritos, ela abriu seus olhos maravilhosos e disse algo, mas ninguém compreendeu uma única palavra.

E eis que, como recompensa por todos os sofrimentos que suportara, surgiu em seus braços uma criança recém-nascida. Aguardavam-na um berço magnífico com dossel de seda, uma moradia luxuosa, júbilo, êxtase e uma vida rica de todos os bens terrestres, mas o Senhor julgou de outro modo: coube-lhe nascer numa pobre cabana, e nem mesmo o beijo da mãe lhe foi dado receber.

A esposa do pescador aproximou a criança do peito da mãe, e ela ficou junto ao coração que já deixara de bater — a mãe morrera. A criança, que deveria encontrar na vida apenas riqueza, apenas felicidade, fora lançada pelo mar sobre as dunas, para experimentar a necessidade e a sorte do pobre.

O navio espanhol naufragara um pouco ao sul de Nissumfjord. Os tempos cruéis, desumanos, em que os habitantes da costa se dedicavam ao saque dos náufragos, haviam passado há muito. Agora os infelizes encontravam aqui tratamento amoroso, sincero, ampla disposição para ajudar. Nosso tempo pode orgulhar-se de traços de caráter verdadeiramente nobres! A mãe moribunda e a criança infeliz teriam encontrado abrigo e cuidado em qualquer casinha da costa, mas em nenhum lugar seriam tratadas com maior compaixão, com maior carinho, do que justamente naquela para onde foram parar: na casa da pobre pescadora, que tão tristemente estivera ontem junto ao túmulo de seu filho, que naquele dia completaria cinco anos.

Ninguém sabia quem era a mulher falecida nem de onde viera. Os destroços do navio permaneciam mudos.

Na Espanha, na casa de um rico comerciante, jamais receberam carta ou notícia alguma sobre a filha ou o genro. Souberam apenas que não haviam alcançado o destino e que, nas últimas semanas, tempestades terríveis haviam assolado o mar. Esperaram meses; finalmente, chegou a notícia: "Naufrágio total; todos pereceram".

E na cabana do pescador, nas dunas, apareceu um novo habitante.

Onde o Senhor envia alimento para dois, basta também para o terceiro: na beira do mar há peixe suficiente para um estômago faminto. O menino foi chamado Jørgen.

— Este certamente é uma criança judia! — diziam dele. — Vejam só, tão moreno!

— Ou talvez seja espanhol ou italiano! — disse o padre. Mas todas essas três nacionalidades eram, aos olhos da esposa do pescador, uma coisa só, e ela consolava-se com o fato de a criança ter sido batizada. A criança crescia; sangue nobre alimentava-se de comida pobre; um rebento de linhagem nobre crescia numa cabana miserável. A língua dinamarquesa, o dialeto da Jutlândia Ocidental, tornou-se para ele a língua materna. Um grão de romã, vindo do solo espanhol, cresceu na costa ocidental da Jutlândia como um grão de areia. Eis como o ser humano pode adaptar-se! Enraizou-se na nova pátria com todas as suas raízes vitais. Estava destinado a conhecer a fome, o frio e outras adversidades, mas também as alegrias que cabem ao pobre.

>

Cada infância humana possui suas alegrias, que lançam um reflexo luminoso sobre toda a vida. Em brincadeiras e diversões, Jørgen não teve falta. Na praia do mar havia amplo espaço para brincar: toda a costa estava salpicada de brinquedos, pavimentada, como um mosaico, com pedrinhas coloridas. Havia ali pedras vermelhas como coral, amarelas como âmbar, e brancas, redondinhas como ovos de passarinho, enfim, todo tipo de pequenas pedras lisas e polidas pelo mar. Esqueletos secos de peixes, algas ressecadas e outras plantas marinhas, que branqueavam na praia e envolviam as pedras como fitas, também serviam de brinquedos, divertimento para os olhos, alimento para a mente. Jørgen era um garoto capaz, ricamente dotado. Como memorizava diversas histórias e canções! E que mãos ele tinha, verdadeiramente de ouro! Das pedras e

De conchas, ele construía barquinhos e quadros para enfeitar as paredes. O menino podia, segundo dizia sua mãe adotiva, expressar seus pensamentos entalhando um pedacinho de madeira, embora ainda fosse muito pequeno. Como soava maravilhosamente sua vozzinha; as melodias jorravam por si mesmas de sua garganta. Sim, muitas cordas estavam esticadas em sua alma: poderiam ter ressoado por todo o mundo, se seu destino tivesse sido outro, se não o tivesse lançado naquela remota aldeia de pescadores.

Certa vez, um navio naufragou nas proximidades e as ondas arremessaram à praia uma caixa com bulbos de flores raras. Alguns foram esmagados na sopa — os pescadores os tomaram por comestíveis; outros ficaram apodrecendo na areia. Não lhes foi dado cumprir seu destino — desdobrar diante dos olhos toda a luxúria de cores neles oculta. Será Jørgen mais feliz? Os bulbos logo pereceram, enquanto a ele aguardavam longos anos de provações.

Nem a ele nem a qualquer outra pessoa ao redor jamais ocorreu que os dias ali se arrastavam monótonos e tediosos: havia trabalho de sobra para as mãos, para os olhos e para os ouvidos. O mar era um enorme livro didático e cada dia desdobrava uma nova página, apresentando aos habitantes da costa ora a calmaria, ora leves ondulações, ora vento e tempestade. Naufrágios eram grandes acontecimentos, e as idas à igreja constituíam verdadeiras festas. Dentre as visitas de parentes e conhecidos, especial alegria trazia à família do pescador a chegada do tio, vendedor de enguias de Fjälltringa, perto de Bovbjerg. Ele vinha aqui duas vezes por ano numa carroça pintada, cheia de enguias; a carroça era uma caixa com tampa, decorada sobre fundo vermelho com tulipas azuis e brancas; puxavam-na um par de bois malhados. Permitiam que Jørgen passeasse montado neles.

O comerciante de enguias era espirituoso, alegre e sempre trazia consigo um barril de vodca. A todos cabia uma taça cheia ou uma xícara de café, caso faltassem copos; até mesmo a Jørgen, por menor que fosse, davam uma dose do tamanho de um dedal. É preciso beber para reter no estômago a enguia gordurosa, dizia o comerciante, e cada vez contava a mesma história; se os ouvintes rissem, recomeçava-a desde o início. Tal é a fraqueza das pessoas loquazes! E como Jørgen mesmo frequentemente se guiava por essa história na adolescência e até na idade adulta, convém também a nós conhecê-la.

No rio nadavam enguias; as filhinhas todas pediam à mãe para sair a passeio, subir rio acima, e a mãe lhes dizia: «Não vão muito longe! Senão virá o mau pescador e vos matará a todas!» Mas elas mesmo assim foram longe demais, e das oito filhas apenas três retornaram à mãe. Puseram-se a lamentar: «Mal saímos um pouco de casa, apareceu o mau pescador e traspassou nossas irmãs até a morte com seu tridente!» — «Ora, elas ainda voltarão para nós!» — disse a mãe. «Não!» — responderam as filhas, «ele esfolou-as, cortou-as em pedaços e as fritou!» — «Voltarão!» — repetiu a mãe. «Mas ele as comeu!» — «Voltarão!» — «Ele as lavou com vodca!» — disseram as filhas. «Ai! Ai! Então nunca mais voltarão!» — uivou a mãe. «A vodca sepulta as enguias!»

— Pois então deve-se sempre acompanhar este prato com vodca! — acrescentava o comerciante.

Essa história percorreu toda a vida de Jørgen como um fio vermelho, fornecendo amplo material para gracejos divertidos, ditos e comparações. E Jørgen, de tempos em tempos, sentia imenso desejo de espiar para fora de casa, de passear pelo mundo afora, mas sua mãe, tal como a mãe das enguias, dizia: «Há muita gente má no mundo, pescadores cruéis!» Ora, não era impossível visitar a planície, não muito distante das dunas, e ele a visitou. Quatro dias alegres iluminaram toda a sua infância; neles refletiu-se para ele toda a beleza da Jutlândia, toda a alegria e felicidade da terra natal. Os pais de Jørgen foram convidados para um banquete — verdade seja dita, um banquete fúnebre.

Morrera um de seus parentes abastados. Vivia ele na planície, a nordeste da aldeia de pescadores. Os pais levaram Jørgen consigo. Ultrapassadas as dunas, a planície e o pântano, a estrada seguiu por um prado verde, onde serpenteia o rio Skærum, abundante em enguias. Foi ali que viveu a mãe das enguias com suas filhinhas, mortas, esfoladas e cortadas em pedaços por homens maus. Mas frequentemente os homens agem não melhor uns com os outros. Assim também o cavaleiro Bugge, de quem fala uma antiga canção, foi morto por homens maus, embora ele mesmo, por mais bom que fosse, pretendesse matar o construtor que lhe erguera um castelo de paredes grossas com torres. Esse castelo ficava exatamente no lugar onde agora Jørgen se detivera com seus pais, na desembocadura do rio Skærum no Nissum Fjord. Ainda se viam os aterros, e sobre eles restos de paredes de tijolos. O cavaleiro Bugge, enviando seu servo em perseguição ao construtor que partira, disse: «Alcança-o e diz-lhe: "Mestre, a torre está caindo! Se ele se voltar, corta-lhe a cabeça e toma o dinheiro que recebeu de mim; se não se voltar, deixa-o ir em paz".»

O servo alcançou o construtor e disse o que lhe fora ordenado, mas este, sem se voltar, respondeu: «A torre ainda não cai, mas algum dia virá do oeste um homem de capa azul e a fará cair.» E assim aconteceu cem anos depois: o mar inundou a região, e a torre caiu; porém o proprietário do castelo, Predbjørn Gyldenstierne, construiu para si outro, ainda mais alto que o anterior; ele permanece até hoje em Vestervig Borre.

Tiveram também de passar junto a este último. Todos esses lugares há muito eram familiares a Jørgen pelas narrativas que lhe adoçavam as longas noites de inverno, e agora ele próprio via o pátio cercado por fossos duplos, árvores e arbustos, e o aterro coberto de samambaias. Mas o melhor ali eram as altas tílias, cujas copas alcançavam o telhado e enchiam o ar de doce aroma. No canto noroeste do jardim crescia um grande arbusto coberto de flores como neve. Era um sabugueiro, o primeiro sabugueiro florido que Jørgen via. E ele, juntamente com as tílias em flor, gravaram-se em sua memória para toda a vida; a criança acumulava para a velhice recordações da beleza e do aroma da pátria.

O restante do caminho foi percorrido muito mais rápido e confortavelmente: justamente em Vestervig Borre, onde florescia o sabugueiro, Jørgen e seus pais foram alcançados por outros convidados ao banquete, que viajavam numa carroça e ofereceram-lhes carona. Naturalmente, todos os três tiveram de acomodar-se atrás, sobre um baú de madeira guarnecido de ferro, mas para eles isso era ainda assim melhor do que caminhar a pé. A estrada atravessava a planície acidentada; os bois que puxavam a carroça de vez em quando paravam, encontrando entre a urze um pedaço de terra coberto de grama fresca; o sol aquecia, e sobre a planície elevava-se uma fumaça estranha. Ela enrolava-se em novelos e ao mesmo tempo era mais transparente que o próprio ar; parecia que os raios solares se enrolavam e dançavam sobre a planície.

— É «Lokemand» tocando seu rebanho de ovelhas! — disseram a Jørgen, e isso lhe bastou: imediatamente transportou-se para um país de contos de fadas, sem porém perder de vista a realidade circundante. Que silêncio reinava na planície!

Por todos os lados estendia-se a planície imensa, semelhante a um tapete precioso; a urze florescia; o zimbro verde-cipreste e os rebentos frescos de pequenos carvalhos surgiam dela como buquês. Dava vontade de atirar-se sobre esse tapete e rolar — não fosse a multidão de víboras venenosas ali existentes!... Foi precisamente sobre elas e sobre lobos que recaiu a conversa; destes últimos houvera outrora tantos que toda a região se chamava Terra dos Lobos. O velho cocheiro contou que antigamente, quando ainda vivia seu falecido pai, os cavalos frequentemente tinham de defender-se ferozmente contra as bestas sanguinárias, e certa manhã ele mesmo deparou com um cavalo pisoteando um lobo por ele morto, mas suas patas estavam todas roídas.

Demasiado rápido para o menino, atravessaram a planície acidentada e as areias profundas e chegaram à casa, onde havia hóspedes em abundância. As carroças apinhavam-se umas contra as outras; cavalos e bois beliscavam a erva rala. Atrás do pátio erguiam-se dunas de areia, tão altas e vastas quanto as da aldeia natal de Jørgen. Como terão vindo elas da costa, se dali distam três milhas? O vento as levantou e transportou; elas têm sua própria história.

Cantaram salmos, dois ou três velhinhos e velhinhas choraram, mas, na opinião de Jørgen, tudo foi muito alegre: come-se e bebe-se à vontade. Serviram enguias gordurosas, que deviam ser lavadas com vodca. «Ela retém as enguias!» — costumava dizer o velho comerciante, e ali guardavam firmemente suas palavras. Jørgen corria por toda parte e no terceiro dia sentia-se completamente em casa. Mas aqui, na planície, era bem diferente do que em sua aldeia de pescadores, sobre as dunas: a planície fervilhava de florezinhas e de pombas-torcazes;

grandes e doces bagas eram simplesmente pisoteadas, e o urze era regado com suco vermelho.

Aqui e ali erguiam-se túmulos; no ar quieto fumegava uma fumaça; somewhere a estepe queima — diziam a Jørgen. À noite, porém, sobre a estepe elevava-se um clarão — que beleza!

No quarto dia as cerimônias fúnebres terminaram, era hora de voltar para casa, às dunas à beira-mar.

— As nossas são verdadeiras — disse o pai —, mas nestas não há força alguma.

Surgiu a conversa sobre como haviam chegado aqui, ao interior do país. Muito simples. Na praia encontraram um corpo morto; os camponeses o enterraram no cemitério, e logo depois começou uma terrível tempestade, a areia foi empurrada para o interior do país, o mar avançava selvagemente sobre a costa. Então um homem sábio aconselhou desenterrar a sepultura e ver se o defunto chupava o polegar. Se sim, seria um espírito das águas, e o mar o reclamava. Desenterraram a sepultura: o defunto chupava o polegar; imediatamente colocaram-no numa carroça, atrelaram dois bois, e estes, como se fossem picados, levaram-na através da estepe e do pântano direto para o mar. A tormenta de areia cessou, mas as dunas, tal como foram acumuladas, permaneceram lá dentro do país. Jørgen ouvia e guardava todas essas histórias na memória, juntamente com as recordações dos dias mais felizes da infância, das cerimônias fúnebres.

Sim, isso sim era escapar de casa, ver novos lugares e novas pessoas! E Jørgen teria mesmo de escapar novamente. Ainda não completara quatorze anos, e já se alistara num navio e partira pelo mundo fora. Conheceu o tempo e o mar, e pessoas más e cruéis! Não em vão fora grumete! Comida escassa, noites frias, chicote e punhos — tudo lhe coube provar. Havia motivo para às vezes ferver seu nobre sangue espanhol; palavras ardentes pediam para sair da boca, mas era mais prudente morder a língua, e para Jørgen isso era o mesmo que permitir que uma enguia fosse esfolada e posta na frigideira.

— Bem, eu terei o meu quinhão! — dizia ele consigo mesmo.

Coube-lhe ver também a costa espanhola, a pátria de seus pais, até mesmo aquela mesma cidade onde viveram em felicidade e abundância, mas ele nada sabia nem sobre sua pátria nem sobre sua família, e a família sobre ele — ainda menos.

Não permitiam sequer que o rapaz fosse à terra, e ele só pisou nela pela primeira vez no último dia da estadia: era preciso comprar alguns mantimentos, e levaram-no consigo como ajuda.

E assim Jørgen, vestido com trapos miseráveis, como se lavados numa vala e secos numa chaminé, encontrou-se na cidade. Ele, nativo das dunas, via pela primeira vez uma grande cidade. Que casas altíssimas, ruas estreitas, quanta gente! Multidões iam e vinham; pelas ruas parecia correr um rio vivo: cidadãos, camponeses, monges, soldados... Gritos, barulho, algazarra, tinir de campainhas nos burros e mulas, repicar de sinos das igrejas, cantos e estalos, estrondo e ruído: artesãos trabalhavam nas soleiras das casas, ou mesmo diretamente nas calçadas. O sol assava, o ar era pesado e sufocante; Jørgen sentia-se dentro de um forno incandescente, abarrotado de besouros de esterco e de maio zumbindo e buzzando, abelhas e moscas; a cabeça dava voltas. De repente viu diante de si o majestoso portal de uma catedral; na penumbra sob as abóbadas cintilavam velas, fumegava incenso. Até o mendigo mais esfarrapado tinha direito de entrar na igreja; o marinheiro com quem enviaram Jørgen dirigiu-se para lá; Jørgen seguiu-o. Imagens brilhantes resplandeciam sobre fundo dourado. No altar, entre flores e velas acesas, ostentava-se a Mãe de Deus com o Menino Jesus. Sacerdotes em vestes luxuosas cantavam, e bonitos meninos bem trajados incensavam. Toda essa beleza e esplendor causaram em Jørgen uma impressão profunda; a fé e a religião de seus pais tocaram as cordas mais íntimas de sua alma; lágrimas brotaram em seus olhos.

Da igreja dirigiram-se ao mercado, compraram os mantimentos necessários, e Jørgen teve de carregar parte deles. O caminho era longo, ele cansou-se e parou para descansar diante de uma grande e magnífica casa com colunas de mármore, estátuas e amplas escadarias. Jørgen encostou sua carga à parede, mas apareceu um porteiro todo dourado, de libré, que, levantando contra ele uma bengala com pomo de prata, expulsou-o — a ele, neto do dono da casa! Mas ninguém sabia disso; o próprio Jørgen — menos que todos.

O navio partiu; de novo arrastou-se a mesma vida: empurrões, xingamentos, falta de sono, trabalho pesado... Ora, não faz mal experimentar tudo! Dizem que é bom passar por uma escola rigorosa na juventude. Bom é, bom — se depois te espera uma velhice feliz!

A viagem terminou, o navio ancorou novamente no Fiorde de Ringkøbing, e Jørgen voltou para casa, à aldeia de pescadores, mas, enquanto ele vagava pelo mundo, sua mãe adotiva morrera.

Chegou um inverno rigoroso. No mar e em terra rugiam tormentas de neve; era realmente uma desgraça atravessar a estepe. Como, de fato, diferem entre si os diversos países: aqui frio gelado e nevasca, enquanto na Espanha calor terrível! E ainda assim, vendo num dia claro e gelado um grande bando de cisnes voando do lado do mar em direção ao Norte Vosborg, Jørgen sentiu que ali pelo menos se respirava mais facilmente, que ali, pelo menos, se podia desfrutar das delícias do verão. E mentalmente imaginou a estepe, toda em flor, salpicada de bagas maduras e suculentas, e as tílias floridas junto ao Norte Vosborg... Ah, era preciso voltar lá outra vez!

Chegou a primavera, começou a pesca, Jørgen ajudava o pai. Crescera muito no último ano, e o trabalho lhe ia bem. A vida fervilhava nele; sabia nadar sentado e em pé, até dar cambalhotas na água, e frequentemente aconselhavam-no a ter cuidado com as cavalas — elas nadam em cardumes e atacam os melhores nadadores, arrastam-nos para debaixo d'água e devoram-nos. Eis o fim! Mas o destino preparava outra coisa para Jørgen.

Os vizinhos tinham um filho chamado Morten; Jørgen fez amizade com ele, e juntos alistaram-se num navio que partiria para a Noruega, depois para a Holanda. Sérias desavenças entre eles geralmente não havia motivo algum, mas quantas coisas acontecem! Nas naturezas ardentes as mãos coçam tanto; aconteceu uma vez com Jørgen, quando discutiu com Morten por algumas ninharias. Estavam sentados num canto atrás da cabine do capitão e comiam da mesma tigela de barro; Jørgen tinha uma faca nas mãos e ergueu-a contra o companheiro, ficando todo pálido e com os olhos brilhando selvagemente. Mas Morten apenas disse:

— Então és dos que estão prontos a usar a faca?

No mesmo instante a mão de Jørgen baixou; em silêncio terminou o almoço e voltou ao seu trabalho. Após terminar os trabalhos, aproximou-se de Morten e disse: «Bate-me no rosto — mereço! Em mim, realmente, ferve sempre transbordando, como numa panela com água fervente!»

— Bem, esqueçamos isto! — respondeu Morten, e desde então a amizade deles tornou-se quase o dobro mais forte. Voltando para casa, na Jutlândia, às dunas, contaram sobre a vida no mar, relataram também esse incidente. Sim, o sangue em Jørgen fervia transbordando, mas ainda assim ele era um bom e confiável «panela».

— Só não «jutlandesa» — não se pode chamá-lo de jutlandês! — brincou Morten. (A chamada «louça jutlandesa», fabricada de argila escura, distingue-se pela resistência ao fogo e durabilidade. — Nota do tradutor.)

Ambos eram jovens e saudáveis; ambos — rapazes altos, de constituição robusta, mas Jørgen distinguia-se por maior agilidade.

No norte, na Noruega, os camponeses pastoreiam seus rebanhos nas montanhas, onde existem especiais cabanas de pastores, enquanto na costa ocidental da Jutlândia, nas dunas, construíram-se cabanas para pescadores; são feitas de destroços de navios e cobertas de turfa e urze; pelas paredes internas correm beliches para dormir. Cada pescador tem sua própria moça ajudante; suas obrigações são colocar iscas nos anzóis, receber o patrão que retorna da pesca com cerveja quente, preparar-lhe a comida, retirar das embarcações o peixe capturado, limpá-lo etc.

Jørgen, seu pai e mais alguns pescadores com suas trabalhadoras alojavam-se numa mesma cabana. Morten vivia na mais próxima.

Entre as moças havia uma chamada Elsa, que Jørgen conhecia desde a infância. Ambos eram muito amigos; em seus costumes havia muita semelhança, mas na aparência diferenciavam-se drasticamente: ele era moreno e de cabelos escuros, enquanto ela era branquinha; seus cabelos eram loiros como linho, e os olhos azul-claros como o mar iluminado pelo sol.

Uma vez caminhavam lado a lado; Jørgen segurava a mão dela na sua e apertava-a fortemente. De repente Elsa disse-lhe:

— Jørgen, tenho algo no coração! Seria melhor eu trabalhar contigo — tu és para mim como um irmão, enquanto Morten, para quem me alistei, é meu noivo. Apenas não devemos falar disso aos outros!

A areia pareceu oscilar sob os pés de Jørgen,

mas ele não proferiu uma única palavra, apenas acenou com a cabeça: concordava, dizia. Nada mais se exigia dele. Mas ele, naquele mesmo instante, sentiu que odiava Morten de todo o coração. Quanto mais pensava no ocorrido — e antes nunca havia pensado tanto em Elsa —, mais claro lhe tornava-se que Morten lhe roubara o amor da única moça de que gostara, isto é, de Elsa; eis como as coisas se apresentavam agora!

Vale a pena observar como os pescadores são transportados, em tempo fresco, pelas ondas através dos recifes. Um dos pescadores permanece na proa, enquanto os remadores não desviam os olhos dele, aguardando o sinal para abaixar os remos e entregar-se à onda iminente, que deve levar o barco através do recife. Primeiro, a onda eleva o barco tão alto que, da costa, se vê sua quilha; um minuto depois, ele desaparece nas ondas; não se vê mais o barco, nem as pessoas, nem o mastro; o mar parece ter engolido tudo... Mas passa mais um minuto, e o barco reaparece na superfície do outro lado do recife, como um monstro marinho que emergisse das águas; os remos movem-se rapidamente — exatamente como as pernas de um animal. Diante do segundo, diante do terceiro recife, repete-se o mesmo; então os pescadores saltam para a água e conduzem o barco até a praia; os golpes das ondas ajudam-nos, empurrando-o por trás.

Não dar o sinal no momento oportuno, errar por um minuto, e — o barco despedaçar-se-á contra o recife.

"Então seria o fim para mim e para Morten!" Esse pensamento passou pela mente de Jørgen quando estavam no mar. Seu pai subitamente adoeceu gravemente, a febre o atormentava sem trégua; entretanto, o barco aproximava-se do último recife;

Jørgen levantou-se de um salto e gritou:

— Pai, deixe-me assumir o comando! — e seu olhar deslizou do rosto de Morten para as ondas.

Eis que se aproxima uma enorme onda... Jørgen olhou para o rosto pálido do pai e — não conseguiu executar a intenção maligna. O barco passou feliz pelo recife e alcançou a praia, mas o pensamento mau firmemente se instalou na cabeça de Jørgen; o sangue fervia nele; do fundo da alma emergiam diversas partículas e fibras que ali haviam penetrado durante sua amizade com Morten, mas ele não conseguia fiar delas um fio inteiro ao qual pudesse agarrar-se, e por enquanto não dava início à ação. Sim, Morten estragara sua vida, ele sentia isso!

Como então não odiá-lo? Alguns dos pescadores perceberam esse ódio, mas o próprio Morten nada notava e permanecia sendo o mesmo bom companheiro e falador — talvez até excessivamente falador — rapaz.

Quanto ao pai de Jørgen, teve de ficar de cama; a doença revelou-se mortal, e ele morreu uma semana depois. Jørgen herdou uma casa nas dunas, verdadeiramente pequena, mas ainda assim era algo bom, pois Morten não possuía nem isso.

— Bem, agora não vais mais trabalhar como marinheiro! Ficarás conosco para sempre! — disse a Jørgen um dos velhos pescadores.

Mas Jørgen tinha justamente outros planos — desejava precisamente percorrer o mundo. O comerciante de enguias tinha um tio que vivia em Gamle Skagen; também se dedicava à pesca, mas já era um comerciante abastado e possuía seu próprio navio. Era conhecido como um velho amável; valia a pena servir a tal homem. Gamle Skagen situa-se no extremo norte da Jutlândia, longe da aldeia de pescadores e das dunas, mas essa circunstância agradava especialmente a Jørgen: ele não queria festejar no casamento de Elsa e Morten, que estava marcado para daqui a duas semanas.

O velho pescador não aprovava a intenção de Jørgen — agora ele possuía sua própria casa, e Elsa, provavelmente, inclinar-se-ia mais a seu favor.

Jørgen respondeu de maneira tão abrupta que não foi fácil compreender o sentido de suas palavras, mas o velho simplesmente trouxe Elsa até ele. Ela falou pouco, mas ainda assim disse alguma coisa:

— Tens uma casa... Sim, isso faz pensar!..

E Jørgen pensou profundamente.

Sobre o mar correm ondas furiosas, mas o coração humano às vezes agita-se ainda mais fortemente; são as paixões que o dominam. Muitos pensamentos passaram pela cabeça de Jørgen; finalmente ele perguntou a Elsa:

— Se Morten tivesse uma casa igual à minha, qual de nós dois escolherias?

— Ora, Morten não tem nem terá uma casa!

— Bem, imagina que ele tenha uma.

— Então, provavelmente, escolheria Morten — pois ele me é querido! Mas disso não se vive!

Jørgen refletiu sobre isso toda a noite. O que o impelia, ele mesmo não conseguia explicar, mas o impulso inconsciente mostrou-se mais forte que seu amor por Elsa, e ele obedeceu-lhe — foi pela manhã até Morten. O que Jørgen disse a Morten durante o encontro fora cuidadosamente planejado por ele durante a noite: cedeu ao companheiro sua casa nas condições mais vantajosas para este, dizendo que preferia alistar-se num navio e partir. Elsa, ao saber de tudo, beijou Jørgen diretamente nos lábios — pois Morten lhe era querido.

Jørgen pretendia partir na manhã seguinte bem cedo. Mas à noite, embora já fosse tarde, ocorreu-lhe visitar Morten mais uma vez. Foi e, no caminho, nas dunas, encontrou o velho pescador que não aprovava sua intenção de partir. "Certamente Morten tem um bico de pato costurado nas calças, para que as moças se apeguem tanto a ele!" — disse o velho. Mas Jørgen interrompeu a conversa, despediu-se e dirigiu-se a Morten. Ao aproximar-se, ouviu vozes altas dentro da casa: alguém estava com Morten. Jørgen parou indeciso — não queria de modo algum encontrar-se com Elsa. Depois de refletir bem, não quis ouvir mais uma vez as manifestações de gratidão de Morten e voltou para trás.

De manhã, antes ainda do nascer do sol, ele amarrou seu fardo, levou consigo uma cesta com provisões e desceu das dunas até a própria praia; ali caminhar era mais fácil do que pela areia profunda, e também mais perto: queria primeiro ir a Fjältring visitar o comerciante de enguias, já que prometera visitá-lo.

A superfície brilhante do mar azulava intensamente; a praia estava salpicada de conchas e caramujos; os brinquedos que o divertiram na infância estalavam sob seus pés. De repente, sangue jorrou de seu nariz — uma circunstância insignificante, mas que às vezes acaba adquirindo importância. Duas ou três grandes gotas caíram sobre a manga de sua camisa. Ele as esfregou, estancou o sangue e sentiu que, devido à hemorragia, ficara de algum modo mais leve tanto na cabeça quanto no coração. Na areia crescera um pequeno arbusto de algas marinhas; ele quebrou um galho e o inseriu em seu chapéu. "Corajosamente, alegremente avante! Ver o mundo, sair de casa, como diziam as enguias. Cuidado com as pessoas! Elas são más, matar-vos-ão, cortar-vos-ão e fritar-vos-ão na frigideira!" — repetiu consigo mesmo e riu: — "Bem, eu saberei preservar minha pele! A coragem conquista cidades!"

O sol já estava alto quando ele chegou ao estreito canal que unia o mar ocidental ao Nissum Fjord. Olhando para trás, viu ao longe dois cavaleiros e, a alguma distância atrás deles, ainda várias pessoas a pé; todos aparentemente apressavam-se. Ora, que lhe importava isso? O barco estava na outra margem; Jørgen chamou o barqueiro; zarparam, mas mal haviam reachedo o meio do canal quando os cavaleiros, galopando a toda velocidade, chegaram à praia e começaram a gritar, ordenando a Jørgen, em nome da lei, que retornasse imediatamente. Jørgen não conseguiu entender o que queriam dele, mas concluiu que o melhor seria voltar, pegou ele mesmo um remo e começou a remar de volta à praia. Mal o barco encostou, as pessoas que se aglomeravam na praia saltaram para dentro dele e amarraram as mãos de Jørgen com uma corda; ele nem teve tempo de recobrar os sentidos.

— Espera! Pagarás com a cabeça por teu crime! — disseram eles. — Ainda bem que te capturamos!

Acusavam-no nada menos que de assassinato: Morten fora encontrado com a garganta cortada. Um dos pescadores encontrara Jørgen na véspera, tarde da noite, no caminho para a moradia de Morten; Jørgen já ameaçara várias vezes o último com uma faca — logo, era ele o assassino! Deviam vigiá-lo rigorosamente; em Ringkøbing seria o lugar mais seguro, mas não se chegaria lá tão cedo. Soprava justamente um vento oeste; em meia hora, ou até menos, poderia atravessar a baía e entrar no rio Skærum, e dali apenas um quarto de milha até Nord-Vosborg, onde também havia uma fortaleza robusta com aterros e fossos. No barco estava, junto com outros, o irmão do prefeito, e ele supunha que lhes permitiriam colocar Jørgen numa cela onde estivera presa até sua execução a Margarida a Alta.

Não ouviram as justificativas de Jørgen: as gotas de sangue na camisa o incriminavam. Ele mesmo sabia que era inocente, mas os outros não acreditavam nisso, e decidiu submeter-se ao destino.

O barco atracou exatamente junto ao aterro onde outrora se erguia o castelo do cavaleiro Bugge e onde Jørgen e seus pais haviam parado para descansar no caminho para o banquete, para as homenagens fúnebres. Ah, aqueles quatro dias felizes, luminosos

Dias da infância!.. Agora conduziam-no pela mesma estrada, pelos mesmos prados, em direção ao Norte-Vosborgue, onde ainda permanecia o sabugueiro coberto de flores e as tílias floridas e perfumadas. Era como se ele tivesse passado por ali apenas ontem.

Na ala esquerda do pátio do castelo, sob uma das altas escadarias, abria-se uma descida para uma adega baixa e abobadada. Dali fora levada para a execução Margarita, a Alta. Ela comerá cinco corações de crianças e pensava que, se comesse mais dois, adquiriria a capacidade de voar e de tornar-se invisível. Na parede fora aberta uma pequena abertura de ventilação, mas o aroma refrescante das tílias perfumadas não conseguia penetrar por ela. Umidade, mofo, tábuas nuas no lugar de cama — eis o que Jørgen encontrou na adega. Mas dizem que uma consciência limpa é um travesseiro macio; assim, Jørgen dormia bem.

A porta grossa estava trancada com um pesado ferrolho de ferro, mas os fantasmas da superstição penetram até mesmo pelo buraco da fechadura, penetram tanto nas mansiones senhoriais quanto nas cabanas dos pescadores, e aqui, junto a Jørgen, penetravam com ainda mais facilidade. Ele sentava-se e pensava em Margarita, a Alta, em seus crimes... No ar pareciam ainda pairar seus últimos pensamentos, os pensamentos aos quais ela se entregara na noite anterior à execução. Vinham também à mente de Jørgen as histórias sobre milagres que ocorriam ali durante a vida do proprietário Svanvedel: o cão que guardava a ponte era encontrado todas as manhãs enforcado pela corrente nos parapeitos da ponte. Todos esses pensamentos sombrios assediavam e amedrontavam Jørgen, e apenas uma recordação iluminava a adega com um raio de sol — a recordação do sabugueiro florido e das tílias.

Contudo, não permaneceu ali por muito tempo; transferiram-no para Ringkøbing, para um encarceramento igualmente severo.

Naquela época não era como hoje; o homem pobre passava mal. Todos ainda tinham na memória como as quintas camponesas e aldeias inteiras eram transformadas em novas propriedades senhoriais, como qualquer cocheiro ou lacaio se tornava juiz e condenava o pobre camponês, pelo mais insignificante delito, à perda de sua parcela de terra ou às chicotadas. Algo semelhante ainda continuava a acontecer na Jutlândia: longe da residência real e dos vigilantes esclarecidos da ordem e do direito, a lei era aplicada de maneira bastante arbitrária. Assim, foi até certo ponto suportável que Jørgen tivesse de definhar na prisão.

Que frio reinava no local onde o haviam encerrado! Quando terminaria tudo isso? Ele era inocente, mas fora entregue à ignomínia e às desgraças — eis seu destino! Sim, ali podia refletir sobre ele com tranquilidade. Por que o perseguia assim?.. Tudo se esclareceria lá, na vida futura, que nos espera a todos! Jørgen crescera com essa fé. Aquilo que o pai, rodeado pela natureza luxuriante e banhada de sol da Espanha, não conseguira compreender, brilhava para o filho como um raio consolador entre a escuridão e o frio que o cercavam. Jørgen confiava firmemente na misericórdia de Deus, e essa confiança nunca é enganada.

As tempestades da primavera novamente se faziam sentir. O estrondo do mar era ouvido a muitas milhas de distância, mesmo no interior do país, mas somente depois que a tempestade amainava. O mar rugia como se centenas de carroças pesadas rolassem sobre solo duro e revolto. Jørgen escutava atentamente esse estrondo, que trazia alguma variedade à sua vida. Nenhuma canção antiga chegava tão profundamente ao seu coração quanto a música das ondas que rolavam, a voz do mar tormentoso. Ah, mar, mar selvagem e livre! Tu e o vento levais o homem de país em país, e por toda parte ele vagueia juntamente com sua casa, como um caracol, levando consigo por toda parte um pedaço de sua pátria, um fragmento de seu solo natal!

Como Jørgen escutava o murmúrio surdo das ondas, e como dentro dele próprio agitavam-se pensamentos e recordações! "Liberdade! Liberdade!" Na liberdade — o paraíso, a bem-aventurança, mesmo que se tenham sapatos sem sola e roupas grosseiras remendadas! O sangue fervia nele de ira, e ele batia o punho contra a parede.

Assim passaram semanas, meses, passou-se até um ano inteiro. De repente, capturaram o ladrão Niels, apelidado "o negociante", e para Jørgen começaram tempos melhores: ficou claro quão injustamente haviam procedido com ele.

Ao norte da baía de Ringkøbing havia uma taverna; foi ali que se encontraram, numa tarde, na véspera da partida de Jørgen da aldeia, Niels e Morten.

Bebem uma taça, bebem outra, e Morten não exatamente se embriagou, mas sim... exaltou-se demasiadamente, soltou a língua — contou que comprara uma casa e pretendia casar-se. Niels perguntou de onde ele obtivera o dinheiro, e Morten, vangloriando-se, bateu no bolso:

— Lá onde devem estar!

A vaidade custou-lhe a vida. Ele foi para casa, Niels rastejou atrás dele e cravou-lhe uma faca no pescoço, para roubar o dinheiro que não existia.

Todas essas circunstâncias foram expostas detalhadamente no processo, mas basta-nos saber que Jørgen foi posto em liberdade. Ora, com que o recompensaram por tudo o que sofrera: um ano de encarceramento, frio e fome, afastamento dos homens? Disseram-lhe simplesmente que, graças a Deus, era inocente e podia ir embora. O burgomestre deu-lhe dez marcos para a viagem, e alguns cidadãos ofereceram-lhe cerveja e boa comida. Sim, havia também ali pessoas boas, nem todos eram daqueles prontos a esfaquear, esfoliar e colocar na frigideira! Melhor de tudo foi que, nessa ocasião, chegara à cidade por negócios justamente aquele mesmo comerciante Brenne, de Skagen, junto ao qual Jørgen desejara trabalhar um ano antes.

O comerciante soube de toda a história e quis recompensar Jørgen por tudo o que ele suportara; o coração do velho era bom, ele compreendeu o que o pobre coitado devia ter sofrido e pretendia mostrar-lhe que também havia no mundo pessoas boas.

Da prisão — para a liberdade, para a luz de Deus, onde o esperavam amor e participação sincera! Sim, era tempo de experimentar também isso. A taça da vida nunca está cheia apenas de absinto — nenhum homem bom ofereceria tal coisa ao próximo, e muito menos o próprio Deus — o Amor Que Tudo Abrange.

— Bem, ponha uma cruz sobre tudo isso! — disse o comerciante a Jørgen. — Risquemos este ano, como se nunca tivesse existido, queimemos o calendário e, dentro de dois dias — a caminho, para nossa pacífica e abençoada por Deus Skagen! Chamam-na de "recanto dos ursos", mas é um cantinho acolhedor, bendito, com janelas abertas para a luz branca!

Que viagem foi aquela! Jørgen respirou profundamente. Da fria prisão, do ar abafado e sufocante, encontrar-se novamente sob o sol radiante!

A urze florescia, toda a estepe estava coberta de flores; num túmulo antigo sentava-se um pequeno pastor e tocava numa flautinha caseira feita de osso de carneiro. Fata Morgana, maravilhosas visões aéreas da estepe: jardins suspensos e florestas flutuando no ar, a estranha oscilação das ondas do ar — fenômeno sobre o qual os camponeses dizem: "É Lokeman tocando seu rebanho" — tudo isso ele viu novamente.

Seu caminho levava ao Limfjord, a Skagen, de onde saíram "os homens de longas barbas", os longobardos. No reinado do rei Snio houve fome aqui, e decidiram matar todos os velhos e crianças, mas uma nobre mulher, Gambaruk, proprietária de uma das propriedades do norte, propôs antes expulsar os jovens dos limites do país. Jørgen conhecia essa lenda — até esse ponto ele era instruído — e, se não conhecia além disso a própria terra dos longobardos, situada além dos altos Alpes, sabia pelo menos aproximadamente como ela era. Pois ainda menino estivera no sul, na Espanha, e lembrava-se dos frutos amontoados, das romãs vermelhas, do barulho, da algazarra e do sino tocando na enorme cidade, que lembrava uma colmeia. Mas a melhor terra continua sendo, afinal, a pátria, e a pátria de Jørgen era a Dinamarca.

Finalmente, chegaram a Vendil-Skaga, como se chama Skagen nos antigos manuscritos noruegueses e islandeses. Já naquela época estendia-se aqui, ao longo do banco de areia, até o farol, uma cadeia interminável de dunas, interrompida por campos cultivados, e existiam cidades: Velho Skagen, Vesterby e Østerby. Casas e propriedades já estavam então dispersas entre as colinas de areia movediça trazidas pelo vento, e já então o vento impetuoso levantava a areia não fixada por nada, e já então gritavam estridentemente aqui as gaivotas, as andorinhas-do-mar e os cisnes selvagens. O Velho Skagen, onde vivia o comerciante Brenne e onde Jørgen deveria estabelecer-se, fica a uma milha a sudoeste do cabo Skagen. No pátio do comerciante cheirava a alcatrão; os telhados de todos os edifícios do pátio eram barcos virados de cabeça para baixo; os chiqueiros foram construídos com destroços de navios; o pátio não tinha cerca — não havia de quem nem do que cercar, embora em longas cordas, penduradas uma sobre a outra, secasse o peixe estendido. Toda a costa marítima estava coberta de arenques podres: mal lançavam a rede ao mar, ela voltava completamente cheia de arenques; não havia onde colocá-los — era preciso jogá-los de volta ao mar ou

deixá-la apodrecer na praia.

A esposa e a filha do mercador, bem como todos os moradores da casa, receberam com alegria o pai e senhor; houve apertos de mão, gritos, conversas animadas. E que rostinho encantador e que olhinhos tinha a filha do mercador!

Dentro da casa havia espaço e conforto. Sobre a mesa surgiram pratos de peixe — linguados tais que até um rei se deleitaria com eles! E os vinhos vinham das vinhas de Skagen, do grande mar: o suco de uva chegava a Skagen diretamente em barris e garrafas.

Quando a mãe e a filha souberam quem era Jørgen, ouviram como ele tivera de sofrer de modo tão cruel e injusto, passaram a olhar para ele com ainda mais ternura; especialmente terno era o olhar da filha, a querida Clara. Jørgen encontrou em Velho Skagen um lar familiar acolhedor e maravilhoso; agora seu coração podia tranquilizar-se, embora muito tivesse aquele pobre coração já experimentado, até mesmo a amargura de um amor infeliz, que ou o endurece ou o torna ainda mais brando e sensível. O coração de Jørgen não se endureceu; ele ainda era jovem, e agora restava nele um pequeno espaço vazio. Aliás, por isso mesmo chegou a tempo a viagem de Clara para visitar a tia, em Kristiansand, na Noruega. Ela pretendia partir para lá num navio dentro de cerca de três semanas e permanecer lá durante todo o inverno.

No último domingo antes da partida de Clara, todos foram à igreja para comungar. A igreja era grande e rica; fora construída vários séculos antes por escoceses e holandeses; não muito longe dela erguera-se a própria cidade. A igreja já estava um tanto desgastada pelo tempo, e o caminho até ela era muito árduo, de morro em morro, ora subindo, ora descendo, por areia profunda, mas os habitantes iam mesmo assim de bom grado ao templo de Deus para cantar salmos e ouvir o sermão. As dunas de areia já alcançavam o topo do muro do cemitério, porém as sepulturas eram constantemente limpas.

Era a maior igreja ao norte do Limfjord. No altar, como se estivesse viva, encontrava-se a Mãe de Deus com o Menino nos braços; nos coros havia imagens de madeira entalhada dos apóstolos, e acima, pelas paredes, pendiam retratos dos antigos burgomestres e juízes de Skagen; sob cada retrato ostentava-se uma inscrição convencional referente àquela pessoa. O púlpito também era todo entalhado. O sol brincava alegremente sobre o candelabro de cobre e sobre o pequeno navio suspenso do teto.

Jørgen foi tomado pelo mesmo sentimento de reverência infantil que experimentara ainda menino na rica catedral da Espanha, mas aqui a esse sentimento unia-se ainda a consciência de que também ele pertencia ao rebanho.

Após o sermão começou a comunhão. Jørgen também provou do pão e do vinho, e aconteceu de ele ajoelhar-se exatamente ao lado de Clara. Mas seus pensamentos estavam voltados para Deus; ele estava totalmente absorto no sacramento que se realizava e só percebeu quem era sua vizinha quando já se levantou dos joelhos. Ao olhar para ela, viu que lágrimas escorriam por suas faces.

Dois dias depois ela partiu para a Noruega, enquanto Jørgen continuou a realizar diversos trabalhos pela casa, participando também da pesca; naquela época havia realmente muito que pescar — mais do que agora. Cardumes de cavalas deixavam atrás de si, durante a noite, um rastro luminoso que denunciava seus movimentos debaixo d'água; os escorpiões-do-mar (peixe — cottus scorpius) emitiam sons roucos, e os caranguejos proferiam lamentos lamentáveis quando caídos nas mãos dos pescadores; os peixes não são tão mudos quanto deles se conta. Eis que Jørgen era ainda mais silencioso que eles, guardando seu segredo profundamente no coração, mas um dia estava destinado a vir à tona.

Sentado aos domingos na igreja, ele dirigia devotamente o olhar para a imagem da Mãe de Deus, que se destacava no altar, mas às vezes desviava-os por breve instante para o lugar onde Clara estivera ajoelhada ao seu lado. Ela não lhe saía da mente... Como fora boa para ele!

E eis que chegou o outono: umidade, escuridão, lama... A água acumulava-se nas ruas da cidade, a areia não conseguia absorvê-la a tempo, e os moradores tinham de atravessar as ruas chapinhando, senão mesmo nadando. As tempestades despedaçavam, contra os recifes mortíferos, navio após navio. Começaram as nevascas e as tormentas de areia; a areia soterrava as casas, e os habitantes frequentemente precisavam sair delas pelas chaminés, mas isso não lhes era estranho. Em compensação, na casa do mercador havia calor e conforto; a turfa e os destroços de navios crepitavam alegremente na lareira, enquanto o próprio mercador lia em voz alta, de uma crônica antiga, a narrativa sobre o príncipe dinamarquês Amleto, que retornara da Inglaterra e travara batalha junto a Bovbjerg. Sua sepultura encontra-se perto de Rammé, apenas a cerca de duas milhas do local onde vivia o velho comerciante de enguias; na estepe imensurável erguiam-se centenas de túmulos; a estepe transformara-se num enorme cemitério. O mercador Brenne estivera pessoalmente na sepultura de Amleto. Quando se cansavam da leitura, passavam à conversa; falavam sobre tempos antigos, sobre os vizinhos ingleses e escoceses, e Jørgen cantava a antiga canção "sobre o príncipe inglês", acerca de como o navio fora adornado:

As bordas douradas brilham intensamente,

Neles está escrita a Palavra do Senhor;

E a proa do navio um galeão enfeita:

O príncipe segura a donzela em seus braços.

Jørgen cantava essa canção com especial emoção; seus olhos brilhavam intensamente; desde o nascimento já eram assim, negros e cintilantes.

Assim — cantavam, liam; na casa reinavam paz, serenidade e a graça de Deus; todos se sentiam como numa família verdadeira, até mesmo os animais domésticos. E que ordem havia na casa, que limpeza! Nas prateleiras brilhava intensamente a estanharia polida; salsichas e presuntos pendiam do teto — abundantes provisões de inverno. Nos nossos dias tudo isso pode ser visto na costa ocidental da Jutlândia, em muitas propriedades camponesas: mesma abundância de mantimentos, mesma decoração nas salas, mesma alegria e bom senso; em geral, suas condições melhoraram. E aqui reina a mesma hospitalidade que nas tendas dos árabes.

Nunca Jørgen vivera tão bem, tão alegremente, excetuando-se aqueles quatro dias alegres da infância, passados como convidado num funeral. E contudo, aqui ainda não estava Clara; isto é, não estava fisicamente em casa, mas em pensamentos e conversas ela estava constantemente presente.

Em abril, o mercador decidiu enviar seu navio à Noruega; Jørgen partiria nele. Como ele se alegrara! Bem, e fisicamente ele também recuperara forças nesse período, como dizia a própria senhora Brenne; era agradável olhar para ele.

— E para ti também! — disse-lhe o marido. — Jørgen animou nossas noites de inverno, e a ti também, velhinha! Até pareces mais jovem este ano. Olha só como estás — dá gosto ver! Bem, é verdade que outrora foste a primeira beleza de Viborg, e isso significa muito: em nenhum lugar vi moças tão belas como lá.

Jørgen não pronunciou uma palavra — nem deveria —, mas pensou apenas numa certa moça de Skagen. Era justamente para ela que ele agora partia. O navio, impelido por vento fresco, permaneceu em viagem apenas meio dia.

Cedo pela manhã, o mercador Brenne dirigiu-se ao farol que se eleva longe no mar, próximo ao ponto mais extremo do cabo Skagen. Quando subiu à torre, a luz já estava apagada havia muito tempo; o sol encontrava-se alto no céu. Por uma milha inteira a partir da costa estendiam-se bancos de areia no mar. No horizonte apareceram naquele dia muitos navios, e o mercador esperava, com ajuda de um telescópio, encontrar entre eles o seu próprio "Karen Brenne". De fato, ele aproximava-se; a bordo estavam Clara e Jørgen. Eis que já avistaram ao longe o farol de Skagen e a torre da igreja, que de longe pareciam uma garça e um cisne sobre a água azul. Clara sentava-se junto à amurada e observava como, no horizonte, delineavam-se uma após outra as dunas nativas. Se o vento favorável continuasse a soprar, estariam em casa em menos de uma hora. Tão próxima estava a alegria do reencontro — tão próxima estava também a hora terrível da morte.

Num dos lados do navio abriu-se uma brecha, e a água jorrou para o porão. Correram a bombear a água, a tapar a abertura, içaram todas as velas, arvoraram a bandeira que indicava estar o navio em perigo. Restava apenas cerca de uma milha até a costa; ao longe já apareciam barcos de pesca apressando-se em socorro; o vento empurrava o navio para a praia, a correnteza ajudava, mas o navio afundava na água com rapidez aterradora. Jørgen envolveu com o braço direito a cintura de Clara.

Como ela olhou nos olhos dele antes que ele, invocando o nome de Deus, se lançasse com ela nas ondas! Ela gritou, mas não tinha nada a temer — ele não a soltaria.

O príncipe segura a donzela em seus braços!

Jørgen também tomou essa decisão na hora do perigo terrível. Sua habilidade de nadar serviu-lhe agora; ora trabalhava com ambas as pernas e com a mão livre — com a outra mantinha a moça firmemente pressionada contra si —, ora entregava-se à correnteza, movendo apenas levemente as pernas; enfim, utilizava todos os métodos que conhecia para poupar forças e alcançar a praia.

De repente, ele sentiu que Clara respirou fundo e estremeceu convulsivamente... Ele a apertou contra si ainda com mais força. As ondas rolavam sobre suas cabeças; a correnteza os elevava; a água era tão limpa e transparente. Por um instante, pareceu-lhe ver nas profundezas um cardume de cavalas brilhantes ou, talvez, fosse o próprio monstro marinho, preparando-se para devorá-los... Nuvens, deslizando pelo céu, lançavam sobre a água uma leve sombra, depois novamente os raios do sol brincavam sobre ela. Bandos de pássaros voavam gritando sobre a cabeça de Jørgen; patos selvagens, balançando sonolentos sobre as ondas, ao sua aproximação, levantaram voo assustados. E as forças do nadador diminuíam cada vez mais... Ele percebia isso; faltava ainda nadar bastante até a costa, mas o socorro estava próximo, o barco se aproximava. De repente, ele viu claramente debaixo d'água uma figura branca, olhando diretamente para ele... Uma onda o arrebatou, a figura aproximou-se... Ele sentiu um golpe... tudo escureceu diante de seus olhos!..

No recife, submerso, havia um fragmento de navio com um galeão representando uma mulher apoiada numa âncora. Foi contra essa ponta saliente para cima que Jørgen chocou-se, impulsionado pela correnteza. Sem sentidos, mergulhou na água junto com seu fardo, mas a onda seguinte novamente os lançou para cima.

Os pescadores içaram ambos para o barco; o rosto de Jørgen estava todo ensanguentado; ele jazia como morto, mas segurava a moça com tanta firmeza que mal conseguiram libertá-la de suas mãos. Inerte e pálida, depositaram-na no fundo do barco, que seguia para Skagen.

Todos os meios foram empregados, mas não foi possível trazer Clara de volta à vida. Há muito tempo já navegava Jørgen com um cadáver nos braços, lutando e esgotando-se, salvando uma morta.

Quanto ao próprio Jørgen, ainda respirava, e levaram-no para a casa mais próxima, atrás das dunas. Um certo barbeiro-cirurgião, que ao mesmo tempo era ferreiro e comerciante de miudezas, curou-lhe a ferida à espera do médico, por quem haviam enviado a Hjørring.

O cérebro do doente fora afetado; ele jazia delirante, soltando gritos selvagens, mas no terceiro dia caiu em letargia. A vida parecia pendurar-se nele por um fio, e, segundo as palavras do médico, melhor seria se esse fio se rompesse.

— Queira Deus que ele morra! Nunca mais será homem! Mas ele não morreu, o fio não se rompeu; em compensação, rompeu-se o fio das recordações, foram cortadas pela raiz todas as faculdades mentais — eis o que é terrível! Restou apenas um corpo, que se preparava para recuperar a saúde e viver à sua maneira. O mercador Brenne acolheu Jørgen em sua casa.

— Ele sofreu, salvando nossa criança! — disse o velho. — Agora ele é nosso filho.

Passaram a chamar Jørgen de louco. Mas isso não era totalmente exato; ele assemelhava-se a um instrumento com cordas enfraquecidas, que já não soavam. Apenas por algum instante, em raros momentos, elas recuperavam sua antiga elasticidade e soavam, e mesmo assim apenas alguns acordes isolados de antigas melodias ecoavam. Imagens do passado emergiam e novamente desapareciam, e Jørgen voltava a sentar-se, fixando no espaço um olhar vazio e sem sentido. Deve-se pensar que ele, pelo menos, não sofria. Seus olhos negros haviam perdido o brilho, olhavam sem vida, opacos.

"Pobre, débil Jørgen!", diziam dele.

Eis até onde chegou a criança que a mãe carregara no ventre para uma vida tão rica em felicidade, que seria orgulho imperdoável desejá-la, quanto mais esperá-la além dela! Assim, todas as ricas capacidades da alma foram reduzidas a pó? A necessidade, a dor e a desgraça foram seu quinhão; ele, como um bulbo de flor luxuriante, fora arrancado de solo fértil e atirado sobre a areia — para apodrecer! Acaso não merecia sorte melhor uma criatura feita "à imagem e semelhança" do próprio Deus? Acaso tudo no mundo é apenas jogo de vazios acasos? Não! O misericordioso Senhor certamente lhe preparava na outra vida uma recompensa por tudo quanto sofrera nesta. "A misericórdia de Deus está acima de todas as Suas obras!" — essas palavras do salmista repetia com fé a piedosa esposa do mercador, e sua oração do coração era pela rápida translação de Jørgen ao reino da misericórdia divina, onde reina a vida eterna.

Clara foi sepultada no cemitério, que cada vez mais era coberto pela areia. Mas Jørgen parecia nem perceber isso; isso não entrava na estreita esfera de seus pensamentos; eles apenas capturavam fragmentos do passado. Todos os domingos, acompanhava a família do mercador à igreja e sentava-se quieto, fitando diante de si com olhar vazio. Mas certa vez, ouvindo o canto dos salmos, suspirou, seus olhos brilharam e fixaram-se naquele lugar perto do altar, onde um ano antes estivera de joelhos ao lado de sua amada falecida. Pronunciou o nome dela, empalideceu como um lençol e chorou.

Ajudaram-no a sair da igreja, e ele disse que se sentia muito bem. Já não se lembrava do que lhe acontecera, não se lembrava de nada. Sim, o Senhor o provou duramente! Mas pode alguém duvidar da sabedoria e misericórdia de Nosso Criador? Nosso coração, nossa razão falam-nos de Sua sabedoria e misericórdia, e a Bíblia confirma: "Sua misericórdia está acima de todas as Suas obras!"

E na Espanha, onde a brisa morna acaricia laranjeiras e loureiros, sopra sobre as cúpulas douradas mouriscas, onde fluem sons de canções, estalam castanholas, onde pelas ruas desfilam procissões de crianças com velas e bandeiras ondulantes, sentado numa casa suntuosa, havia um velho sem filhos, o mais rico dos mercadores. O que não daria ele de sua riqueza apenas para reaver seus filhos, a filha ou seu neto, a quem talvez nem fosse destinado ver a luz e, consequentemente, a vida eterna? "Pobre criança!"

Sim, pobre criança! Exatamente uma criança, embora já tivesse quase trinta anos; eis até que idade viveu Jørgen em Skagen.

Os depósitos de areia já cobriam o cemitério até o muro da igreja, mas os moribundos ainda queriam ser sepultados junto aos que antes haviam partido para a eternidade, seus parentes e entes queridos. O mercador Brenne e sua esposa também repousaram sob a areia branca, junto de sua filha.

Chegou a primavera, tempo de tempestades; as dunas fumegavam, o mar erguia altas as ondas, bandos de pássaros voavam sobre as dunas, emitindo gritos. Contra os recifes, navio após navio se despedaçava.

Certa noite, Jørgen estava sentado sozinho no quarto, e de repente irrompeu em seu peito uma inquieta atração, um anseio pelo distante, que tantas vezes o arrastara ainda na infância de casa para as dunas e para a estepe.

"Para casa, para casa!", murmurava ele; ninguém o ouvia; saiu de casa e dirigiu-se às dunas; areia e pedrinhas voavam contra seu rosto, giravam ao seu redor em colunas. Assim chegou até a igreja. A areia cobrira toda a parede e até metade das janelas, mas a passagem até as portas fora limpa. As portas não estavam trancadas e abriram-se facilmente; Jørgen entrou.

O vento uivava sobre a cidade; desencadeou-se uma tempestade horrorosa, qual os habitantes não recordavam, mas Jørgen já estava na casa de Deus. Em torno reinava a noite escura, mas em sua alma havia luz, nela ardia um fogo espiritual que nunca se extingue completamente. Sentiu que o pesado bloco que lhe oprimia a cabeça de repente caiu com estrondo. Pareciam-lhe sons de órgão, mas era a tempestade que uivava e o mar que gemia. Jørgen sentou-se em seu lugar; a igreja iluminou-se com luzes; uma vela acendia-se após outra; tal esplendor ele só vira uma vez na vida, na catedral espanhola. Os antigos retratos dos burgomestres e juízes ganharam vida, desceram das paredes onde haviam pendurado por anos e ocuparam lugares nos coros. As portas e portões da igreja abriram-se, e entraram todos os paroquianos falecidos, vestidos com trajes festivos como usavam em seu tempo. Avançavam ao som de música maravilhosa e sentavam-se em seus lugares. O coro começou a cantar salmos; sons poderosos fluíram em ondas. Os velhos, pais adotivos de Jørgen, o mercador Brenne com sua esposa, também estavam ali, e ao lado de Jørgen sentava-se a querida e amorosa filha deles, Clara. Ela estendeu a mão a Jørgen, e juntos caminharam até o altar, ajoelharam-se, e o sacerdote uniu suas mãos, abençoou-os para viverem em paz e amor!... Soaram trombetas; sons plenos choraram beatificamente, como centenas de vozes infantis, expandiram-se em poderosos, elevadores da alma, turbulentos acordes de órgão e novamente transformaram-se em ternos, encantadores, mas ao mesmo tempo capazes de abalar sepulcrais criptas!

O barquinho que pendia do teto desceu, tornou-se de repente tão grande, magnificamente adornado, com velas de seda, vergas douradas, âncoras de ouro e cabos de seda, como aquele navio de que fala uma antiga canção. Os recém-casados subiram ao navio, todos os demais paroquianos seguiram-nos; houve lugar para todos, todos estavam bem. As paredes e abóbadas da igreja floresceram como sabugueiro e tílias perfumadas, e estenderam carinhosamente seus ramos e folhas em direção ao navio, entrelaçaram-se

sobre ele como um toldo verde. O navio elevou-se e navegou pelo ar. Todas as velas da igreja transformaram-se em estrelinhas, o vento cantava salmos, e os próprios céus cantavam:

«Amor! Bem-aventurança! Nenhuma vida perecerá, mas será salva! Bem-aventurança! Aleluia!..» Estas palavras foram as últimas de Jørgen: rompeu-se o fio que sustentava a alma imortal... Na igreja escura jazia apenas o corpo sem vida, enquanto ao seu redor a tempestade ainda rugia furiosa, e a areia girava em redemoinho.

O dia seguinte era domingo; pela manhã, os paroquianos e o sacerdote dirigiram-se à igreja. Foi difícil chegar até lá: o caminho tornara-se quase intransitável. Finalmente, conseguiram, mas... as portas da igreja estavam soterradas pela areia; diante delas erguia-se toda uma colina. O sacerdote recitou uma breve oração e disse que o Senhor fechara para eles a porta desta Sua casa, e que lhes cumpria erigir-Lhe, noutro lugar, um novo templo.

Cantaram um salmo e dispersaram-se para suas casas.

Jørgen não foi encontrado nem na cidade, nem nas dunas, por mais que o procurassem, e concluíram que fora arrastado pelas ondas.

Mas seu corpo repousava numa grandiosa sepultura — no próprio templo. O Senhor ordenou à tempestade que cobrisse sua tumba com terra, e ela permanece até hoje sob o pesado manto de areia.

As areias cobriram as majestosas abóbadas do templo, e sobre elas crescem agora espinheiros e rosas silvestres. Das areias emerge apenas um campanário — um monumento majestoso sobre a tumba de Jørgen, visível de longe a várias milhas de distância. Nenhum rei jamais recebeu um monumento mais magnífico! Ninguém perturbará o repouso do morto; ninguém sabe, ou pelo menos ninguém sabia até agora, onde ele foi sepultado. Foi o vento, que vagueia sobre as dunas, quem me contou tudo isso.