Conto literário

Três carvalhos

Um peregrino cego, considerado indigno por sua própria falta de fé, intercede durante quinze anos por três almas de ladrões transformadas em carvalhos, demonstrando que a misericórdia divina é infinita e capaz de perdoar até os pecados mais hediondos através da perseverança e compaixão humana.

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Três carvalhos

Vinha de Solovki um peregrino, ceguinho. Em quantos mosteiros ele não esteve, a quantos ícones e relíquias não se prostrou, mas seus olhos não se abriram. Ia o peregrino, levantando poeira com suas sandálias de casca de bétula, batendo com o cajado no caminho. Não sabia para onde ir, onde buscar um milagre.

Inclinava-se o tempo para a tarde. Cansou-se o peregrino, deu-lhe fome. Afastou-se da estrada para o lado, tateou ao redor com o cajado. O cajado bateu numa pedra.

Sentou-se sobre ela o peregrino, tirou do alforje uma côdea de pão endurecido, fez o sinal da cruz e pôs-se a comer.

No lugar onde se sentara o peregrino, estavam três carvalhos. Estavam juntos, entrelaçados pelos ramos como irmãos de sangue. Eram fortes, altos e frondosos.

Está o peregrino sentado, comendo sua côdea, quando de repente ouve:

— De novo, irmãos, veio um homem até nós. Peçamos que reze por nós.

— Não há de querer. Quantos já vieram... Cada um segue seu próprio caminho; quem há de rezar por nós?

— Se eu não contasse meu pecado, talvez alguém rezasse, mas cada um pensa: tal pecado não se pode expiar.

Espantou-se o peregrino: que estranheza é esta, pensa ele, quem estará falando? As vozes são tão abafadas, como se viessem debaixo da terra.

— Somos nós, homem de Deus, os carvalhos. Três estamos aqui à beira da estrada, três ladrozinhos. O Senhor nos puniu, encerrou nossa alma na carne da madeira... Confessar-nos-emos a ti, e tu roga por nós, homem de Deus.

— Eu até gostaria de rezar — disse o peregrino —, mas minhas orações não chegam a Deus. Há quantos anos assim rezo, e continuo cego.

— Reza, peregrino — pedem os ladrões —, contar-te-emos nossos pecados.

— Pois bem, contai.

Rumorou o carvalho da direita, como se sacudisse a cabeça:

— Pesado me é... ah, como é pesado! — começou ele e contou como, por quase trinta e três anos, andara com uma banda desvairada pelo rio Oká. Quantas almas foram ceifadas, ninguém contou; quanto sangue foi derramado, formou-se um mar inteiro... De todos os pecados, um só ficou mais gravado: matou no bosque uma donzela... Ela colhia framboesas doces. Ele a ultrajou e depois cravou uma faca afiada entre os seios brancos, e a pendurou pelas tranças num galho alto.

Rumorou o carvalho do meio, de modo que as folhas caíram.

Contou ele:

Ladroejava no rio Volga. Quantas almas foram ceifadas, ninguém contou; quanto sangue foi derramado, formou-se um mar inteiro. Um pecado, entre todos, é o mais lembrado: certa vez foi a um eremitério visitar um eremita, e o eremita pôs-se a instruí-lo:

"Não", disse ele, "há perdão para ti". Essas palavras feriram-lhe o coração. Golpeou-o com a maça e seguiu adiante...

Tremeu o carvalho da esquerda, balançou:

— Terrível é meu pecado, não há no mundo outro mais pesado. Não rezarás por mim, peregrino. Ir-te-ás sem ouvir até o fim. — E contou Vassíli como fora capturado pelo voivoda. O voivoda torturou-o, indagando sobre os companheiros, mas ele só tivera por companheiros uma maça e uma faca de aço temperado. Prometeu-lhe o voivoda que, se entregasse a cabeça dos outros, cortar-lhe-ia a mão direita e o libertaria. Então, tomado de medo, passou a acusar quem quer que fosse; e, para que o voivoda acreditasse mais firmemente em suas palavras, lançou a acusação contra a própria mãe.

— Sim, pesados são vossos pecados — suspirou o peregrino —, mas ainda assim rogarei por vossas almas pecadoras.

Pôs-se o peregrino de joelhos e começou a rezar. Rezou durante quinze anos. Os corvos traziam-lhe água e pão. Desgastou com os joelhos a pedra de sílex...

Primeiro caiu o carvalho da direita. Saiu dele a alma do ladrão.

Disse a alma: "Claro e alegre me é".

Segundo caiu o carvalho do meio. Saiu dele a alma do ladrão. Disse a alma: "Claro e alegre me é".

Mas o terceiro carvalho permanece de pé, como estava.

Rezava o peregrino até lágrimas de sangue; ainda não havia perdão para o terceiro ladrão.

— Senhor! — exclamou certa vez o peregrino em desespero —, pedi-Te que abrisses meus olhos. Se existe algum pecado que Tu não possas perdoar, então não quero mais ver a luz branca e prefiro permanecer cego até a morte.

E então caiu o terceiro carvalho. Saiu a alma do ladrão, dizendo: "Claro e alegre me é".

E aos olhos do velho se abriram, e ele louvou o Senhor por Sua sabedoria e misericórdia...