No morro erguia-se orgulhosamente o moinho; e ele era mesmo orgulhoso.
— De modo algum sou orgulhosa! — dizia ele. — Mas sou muito ilustrado, por dentro e por fora. O sol e a lua estão ao meu serviço, tanto para uso interior quanto exterior; além disso, tenho de reserva velas de estearina, lamparinas com óleo de baleia e velas de sebo. Ouso dizer que sou ilustrado! Sou um ser pensante e tão bem construído que é até um prazer. No peito tenho uma excelente mó, e na cabeça, logo abaixo do chapéu, quatro asas. Os pássaros têm apenas duas asas, e as carregam nas costas! Sou holandês de origem — isso se vê pela minha figura — «holandês voador»! Sei que o «Holandês Voador» é um fenômeno sobrenatural, mas em mim não há nada de antinatural! Em volta da minha barriga corre toda uma galeria, e na parte inferior fica a habitação. Ali vivem os meus pensamentos. O principal, que governa todos os outros, é chamado pelos demais pensamentos de patrão. Ele sabe o que quer, está muito acima do farelo e da farinha, mas também tem sua igual; chamam-na de patroa. Ela é a alma de todo o empreendimento; no geral, não é tola, também sabe o que quer e conhece suas próprias forças; é terna como uma brisa, forte como uma tempestade, e sabe conseguir o que deseja aos poucos. Ela é o meu lado sensível, enquanto o patrão é o positivo; mas ambos constituem, na verdade, uma só coisa e chamam um ao outro de sua metade. Têm também crianças, pequenos pensamentos, que com o tempo podem crescer. Esses pequeninos às vezes fazem tanta algazarra! Outro dia, quando eu, com inteligência e bom senso, permiti ao patrão e ao seu ajudante investigar no meu peito a mó e as rodas, senti que algo não ia bem, e é preciso saber o que acontece dentro de nós mesmos! Pois bem, os pequeninos fizeram então tamanha algazarra! E isso não convém, quando se está tão alto quanto eu! É preciso lembrar que se está à vista de todos e plenamente iluminado; o julgamento humano é essa mesma iluminação! Sim, o que é que eu queria dizer mesmo? Ah, sim — a terrível algazarra dos pequeninos! O mais novo subiu até o meu chapéu e começou a tagarelar de tal jeito que me fez cócegas por dentro. Mas os pequenos pensamentos podem crescer, eu mesmo o experimentei; e também podem vir pensamentos de fora, nem sempre da minha espécie; por mais longe que eu olhe em redor, não vejo em lugar nenhum ninguém semelhante a mim, ninguém além de mim! Mas mesmo nas casas sem asas, onde se mói sem mós, apenas com línguas, também há pensamentos. Esses pensamentos vêm ter com os meus e casam-se com eles, como dizem. Espantoso! Sim, há muitas coisas espantosas no mundo. Por exemplo: algo aconteceu comigo ou em mim; algo parece ter mudado no mecanismo. O moleiro parece ter trocado sua «metade» por outra mais terna, jovem e piedosa, e por isso tornou-se ele próprio mais suave de alma; a «metade» dele parece ter mudado, mas no fundo permaneceu a mesma, apenas suavizada com os anos. E assim tudo o que era amargo se dissipou, e o negócio foi ainda melhor. Os dias seguem uns após os outros, sempre avante, para alegria e felicidade, e eis que finalmente — sim, disso se falou e se escreveu nos livros — chegará o dia em que deixarei de existir, e contudo permanecerei! Desfarei-me para ressurgir novamente numa forma ainda melhor; deixarei de existir e, no entanto, continuarei a existir. Tornar-me-ei outro e, ao mesmo tempo, permanecerei sendo eu mesmo! Difícil me é compreender isso, por mais ilustrado que seja pelo sol, pela lua, pela estearina, pelo óleo de baleia e pelo sebo! Mas sei firmemente que minhas antigas vigas e tijolos ressurgirão das ruínas. Espero conservar também meus antigos pensamentos: o patrão, a patroa, todos os grandes e pequenos, toda a família, como os chamo, toda a companhia pensante — sem eles não posso viver! Espero também permanecer sendo eu mesmo, tal como sou, com a mó no peito, as asas na cabeça e a galeria em volta da barriga; caso contrário, nem eu me reconheceria, nem os outros me reconheceriam, e não diriam mais: «Eis que no morro ergue-se orgulhosamente o moinho, mas ele próprio não é nada orgulhoso!»
Foi isso o que disse o moinho; disse ainda muitas outras coisas, mas isto foi o principal.
E os dias seguiam uns após os outros, e o último deles foi para ele o último.
O moinho pegou fogo; a chama irrompeu, lançou-se para fora, para dentro, lambeu as vigas e as tábuas, e depois devorou-as todas. O moinho desabou, e dele restou apenas cinza; o local incendiado ainda fumegava, mas logo o vento dissipou a fumaça.
Com os habitantes vivos do moinho nada aconteceu nessa ocasião — apenas lucraram. A família do moleiro — uma só alma, muitas cabeças, formando um todo — adquiriu um novo e maravilhoso moinho, do qual podia estar plenamente satisfeita. O moinho era, à primeira vista, exatamente igual ao antigo, e também dele se dizia: «Lá no morro ergue-se orgulhosamente o moinho!» Mas este estava melhor construído, mais moderno — afinal, tudo avança. As antigas vigas, carcomidas pelos vermes, apodreceram, transformaram-se em pó, em cinza, e o corpo do moinho não ressurgiu das cinzas, como ele pensava. Ele compreendia tudo o que fora dito no sentido literal, mas não se pode compreender tudo literalmente!
Texto verificado